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16.10.10

HILDEBRANDO PAFUNDI

BIOGRAFIA

Hildebrando Pafundi é escritor, jornalista, contista e cronista. Nasceu em São Paulo, Capital, em 26 de outubro de 1939, mas mora em santo André – SP, cidade que faz parte do Grande ABC, desde 1942. Filho de Antonio Pafundi e Carolina dos Anjos Pafundi. Iniciou carreira jornalística em 1963, como colunista do extinto jornal Folha do Povo, que tinha como diretor o falecido escritor e jornalista Paulo Zingg, que foi um dos fundadores da Academia de Letras da Grande São Paulo.

Nesse jornal e em outros manteve colunas paralelas à função de repórter, publicando seus primeiros contos e crônicas, além de resenhas de livros e entrevistas com escritores como Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles, Maria de Lordes Teixeira, Ignácio de Loyola Brandão, entre outros. Colaborou também nos jornais A Ação e Tribuna Popular ( ambos extintos ), Folha do ABC e na antiga revista Expressão, que recentemente voltou a circular nas regiões do ABC e Baixada Santista.

Posteriormente trabalhou em três diferentes oportunidades no Diário do Grande ABC, onde iniciou a carreira profissional de jornalista em 1968, como repórter, exercendo também os cargos de chefe de reportagem e editor. Em 1970 foi contratado também pela antiga Sucursal ABC dos jornais O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde, onde permaneceu por mais de vinte anos, trabalhando como repórter e fotógrafo. Depois da sua demissão e do fechamento da sucursal do Estadão, foi contratado pela Gazeta do ABCD, onde trabalhou em duas diferentes oportunidades como repórter e editor, além de ser o jornalista e responsável.

Foi assessor de imprensa do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e do Sindicato dos Empresários Gráficos do Grande ABC e Baixada Santista. Exerceu essa atividade também no Consórcio Intermunicipal Grande ABC, uma ONG mista que congrega os sete municípios dessa região de 1996 até 2007, sendo editor do informativo Grande ABC, órgão oficial da entidade. Mas quando foi demitido, sem motivo, em 2007, já estava aposentado como jornalista desde o ano 2000.

Desde a década de 1990 atua como animador cultural em saraus literários da Casa da Palavra, onde funciona a Escola Livre de Literatura de Santo André; grupo da Academia Popular de Letras, em São Caetano do Sul, grupo Taba de Corumbê, em Mauá; Movimento Médico Cafezinho Literário (MMCL), que realiza eventos em diversas cidades do Estado de São Paulo; ministra oficinas de contos e profere palestras em faculdades, escolas estaduais, municipais e particulares primárias, infantis e de ensino médio.

Prêmios e livros publicados - A primeira participação de Hildebrando Pafundi em livro ocorreu no ano 2000, quando o conto de sua autoria, Promessa de Vingança, classificado entre os dez primeiros colocados, em concurso literário do ano anterior, promovido pela Academia de Letras da Grande São Paulo foi incluído na coletânea dos melhores, publicada pela Scortecci Editora.

Outro conto de sua autoria, A Greve dos Coveiros, foi premiado entre os três melhores no Concurso de Poesia Professora Marly Cerqueira Lima, Rio de Janeiro / 2002, incluindo no livro individual, Tramas & dramas da vida urbana (contos) / 2004. Ainda em 2002, participou do livro coletivo: Guido Poianas – Retratos da Cidade, biografia e crítica desse artista plástico.

No ano seguinte, o conto de sua autoria, Uma Noite em São Paulo, recebeu o Prêmio Edição, no IV Concurso Grande Nomes da Literatura, sendo incluído na antologia publicada pela Phoenix Editora, com esse título em novembro de 2003.

Em 26 de novembro d 2004, depois de lançar o livro Tramas & dramas da vida urbana, Hildebrando Pafundi foi empossado na Academia de Letras da Grande São Paulo, Cadeira 21, que tem como patrono o romancista José Lins do Rego e teve como primeiro ocupante o saudoso bispo emérito e diocesano de Santo André, Dom Jorge Marcos de Oliveira, que era cronista e poeta. O autor já participou em cerca de 15 antologias coletâneas de crônicas e contos, sendo a maior parte premiados em concursos. Outros livros individuais de sua autoria: No Ritmo Sensual da Dança (contos) / 2006; Cotidiano e Imaginário do Ano 2000 (diário) / 2007; Janela da Liberdade e Outras Histórias (infantil) / 2008; Tramas e dramas da vida urbana (contos), segunda edição ampliada / 2010.

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

HILDEBRANDO PAFUNDI – Embora eu esteja aposentado como jornalista desde ano 2000, só parei de trabalhar nessa profissão em 2007, e atualmente escrevo semanalmente uma crônica e notícias culturais na coluna, Esquina Descontraída, no site www.clqueabc.com.br . Além dessa atividade, eu costumo visitar com certa freqüência, a convite de professores, escolas estaduais, faculdades e também estabelecimentos educacionais infantis para proferir palestras sobre literatura e contar histórias. Como sou membro da Academia de Letras da Grande São Paulo, da União Brasileira de Escritores (UBE-SP) e de alguns grupos culturais e literários, também participo de saraus e ministro cursos de literatura e oficinas de contos e crônicas.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

HILDEBRANDO PAFUNDI – Desde a infância, quando já sabia ler e comecei a freqüentar as matinês de cinema para assistir os filmes do Tarzan, e logo depois, descobri as histórias em quadrinhos desse meu herói da época. Mais tarde ganhei um livro do autor e criador do Tarzan, Edgar Rice Burroughs. Não parei mais de ler. Quando eu estava com 14 anos, meu pai me arrumou emprego numa farmácia, pois desejava que eu fosse medico, e esse seria um bom começo. Aí comecei a ler bulas de medicamentos, aprendi a ler as complicadas letras de médicos nas receitas e a manipular remédios. Mas não deu certo a idéia do meu pai, e depois que ele faleceu comecei a estudar no antigo curso Normal e trabalhar em escritórios de industrias metalúrgicas. Como algumas dessas empresas possuíam um jornal interno, passei a publicar minhas crônicas e contos, que já escrevia, mas estavam engavetados. Em seguida, a partir de 1963, comecei a colaborar com jornais e revistas culturais, e cinco anos depois, fiz um teste e fui contratado como repórter pelo Diário do Grande ABC. Em 1970 fui contratado também pelo jornal o Estado de São Paulo como repórter e fotografo, onde permaneci mais de vinte anos. Em 2000 participei do primeiro livro, uma antologia de contos; e em 2004 publiquei primeiro livro individual.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados ?

HILDEBRANDO PAFUNDI – Além de minha participação em mais de 15 antologias e/ou coletâneas de contos e crônicas, já publiquei quatro livros individuais de minha autoria: Tramas & dramas da vida urbana (contos) / 2004; No Ritmo Sensual da Dança (contos) / 2006; Cotidiano e Imaginário do Ano 2000 (diário) / 2007; Janela da Liberdade e Outras Histórias (infantil) / 2008; e segunda edição ampliada de Tramas & dramas da vida urbana (contos) / 2010, lançado na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 20 de agosto deste ano. Inéditos: Antes que falhe a memória (crônicas), Barzinho Sórdido (contos), alem de um infanto-juvenil, sem título.

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?

HILDEBRANDO PAFUNDI – Qualquer conversa alheia, cena do cotidiano, dentro de um ônibus, trem, metrô, avião ou navio; um acidente de carro com morte, uma criança brincando, uma briga de namorados num bar; um casal dançando num clube ou na balada, e ate algumas notícias de jornal; sonhos... São muitos os impactos que propiciam atmosfera para escrever um conto, uma crônica ou até um romance. Mas é preciso saber construir o cenário, os personagens, diálogos, uma frase para iniciar, que prenda a atenção do leitor logo no início e o segure até o final, que pode ser surpreendente ou não. Cada escritor tem sua técnica e seu estilo.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

HILDEBRANDO PAFUNDI – São muitos os autores que admiro, que já li e alguns que conheci pessoalmente, a começar por Jorge Amado, que na década de 1960 cheguei a entrevistar, quando ele vinha a São Paulo para lançamento de novos livros. Outros que entrevistei e também gosto são Lygia Fagundes Telles, Ignácio de Loyola Brandão, além outros que apenas li, como Marcelino Freire, Rubem Braga, Dalton Trevisan, Fernando Sabino, Érico Veríssimo, João Antonio, Walcir Carrasco, Cecília Meirelles, Luiz Fernando Veríssimo e muitos outros. Isso para citar apenas alguns brasileiros. A lista é longa. Na minha biblioteca particular tenho cerca de cinco mil livros, grande parte deles são de contos, crônicas e romances, muitos de poesias alguns de ensaios de filosofia. Antes que alguém pergunte se já li todos, explico: Muitos desses livros, eu já li, outros ainda estou lendo; e tem um bom numero na fila de espera para futura leitura, além daqueles só utilizados para pesquisas.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores ?

HILDEBRANDO PAFUNDI – Sempre que me fazem essa pergunta, eu digo que quem pretende escrever precisa ler muito e bons autores de vários gêneros literários. Estudar bastante, participar de oficinas literárias e de concursos. Já conheci alguns iniciantes, que diziam não gostar de ler para não ser influenciado e depois acusado de imitador. Besteira. Os que pensam assim, não vão adiante. Os poucos que conheci, que pensavam dessa maneira, já desistiram.

CONTOS

1-Gatos & Ratos

A noite surgiu negra e tenebrosa, enquanto o negro gato dormia, no quarto branco, onde havia um rato preto e uma ratazana branca.

O rato preto gostou da rata branca. Ela também gostou do parceiro pretinho, prova que entre os ratos não existe preconceito racial de cor, como costuma ocorrer em alguns países, entre os seres humanos.

Mas os grunhidos de amor dos ratos, parecidos com os de um casal de javalis, acordaram o gato preto, que miou contra a noite sem estrelas.

Miado grosso, porém carinhoso, chamando a companheira, a bonita gata branca, que estava no cio.

Depois de um delicioso ato sexual, o gata e a gata, que também não tinham preconceito de cor, jantaram o casal de ratos.


2-O Prédio Mais Alto do Mundo

Aquele homem, que desde quando era menino, sempre gostara de construir prédios de papelão e de madeira, acabou se diplomando em engenharia civil, e agora sonhava com a grandeza e a beleza de grandes áreas urbanas.

Seu nome era Paulo Silveira, porem, ficou mais conhecido pelo apelido de Engenheiro Urbano, que teve origem por causa de suas avançadas idéias e seus pomposos projetos arquitetônicos.

Grande edifício desejava construir para tentar atingir o céu. Seria o maior do universo, três vezes superior ao Word Trade Center, nos Estados Unidos, que já virou pó.

O mundo já estava cheio de arranha-céus, mas nenhum deles conseguia sequer fazer cócegas no azul infinito.

Mas com o gigantesco prédio o engenheiro havia sonhado. Ambicioso projeto arquitetônico elaborou, com todo capricho e segurança que exigia a construção, esmerando nos mínimos detalhes.

Esqueceu, no entanto, de um pequeno detalhe: necessitava de alvará para esse enorme prédio ser erguido, algo que não conseguira na Prefeitura. Não era permitido construir prédios tão altos na naquela cidade.

Mesmo assim, sentiu-se feliz, quando foi autorizado a construir modesta casa para morar. Era o que mais necessitava no momento.


3-Janela da Liberdade

Tudo que ele mais desejava: a liberdade para voar como um pássaro no céu azul, as arvores para trepar e pegar fruta no pé, o vento para fazer subir a pipa, a praia para tomar sol, o jogo de bola no campinho, enfim. Tudo que sua mente infantil podia imaginar estava do outro lado da janela, que se encontrava fechada.

Estava preso em seu quarto.

Mas o menino, que tinha o nome de Júlio, não desanimava e sonhava com uma saída, um pequeno o buraco por onde seu corpo franzino pudesse passar. Porem, não dispunha de ferramenta para abrir esta fresta.

Se conseguisse, levaria junto o pássaro e o cachorro, que também gostavam de liberdade e estavam presos no mesmo quarto, pelo de dentro da enigmática janela.

O cachorro não latia e o pássaro não cantava. Pareciam pensativos, sonhadores, exatamente como o menino.

Usando vários lápis coloridos e a cartolina branca, que a mãe deixara no quarto, antes de sair para o trabalho, Júlio tomou uma sábia decisão: desenhar bonita paisagem com arvores frutíferas, sol e céu azulado.

Desta forma, imagina, conquistaria a tão sonhada liberdade. Desenhou a estrada em forma de S esticado, símbolo dessa liberdade.

O menino Júlio e seu cachorro Mimoso pulam a janela e seguem pela estrada, e o pássaro também aproveita a oportunidade: foge da gaiola de arame, que estava com a portinhola aberta e sai voando sobre essa linda paisagem, emoldurada pelas arvores e suas sombras protetoras.

Os três estavam agora felizes naquele bonito desenho, que conseguia reunir pedaços de três vidas prisioneiras, que foram feitas para liberdade.

CRÔNICAS

1-Dança de Salão

Todo ano em janeiro ou fevereiro passo por um exame medico, geral preventivo, o chamado check-up. No ultimo, o medico disse que a minha pressão arterial está ótima, mas o colesterol encontrava-se um pouco alto. Recomendou que evitasse alimentos gordurosos e doces, e que no lugar de açúcar usasse adoçante. E mais: fazer caminhadas.

Mas ao invés de simplesmente caminhar por ruas e parques, o que já faço normalmente, resolvi unir o útil ao agradável e iniciei um curso de dança de salão. Comecei indo fazer essas aulas aos sábados e depois durante outros dias da semana. Em pouco tempo já estava freqüentando os salões de baile de diversos clubes.

Fui informado pelos mais entendidos que a dança é indicada para todas as idades, como forma de diversão, sendo eficaz também no combate ao estresses. Além disso, nos ajuda a conhecer novas pessoas, facilita o convívio social e o encontro de um novo amor; proporciona prazer e substitui a ginástica convencional, pois além dos exercícios físicos normais, temos sempre entre os braços uma linda dama.

2-Cronistas do Estadão

Como ainda estou organizando meus livros, depois de mais uma mudança de residência, um deles me chama a atenção. Foi caso do volume cronistas do Estadão, organizado e editado por Moacir Amâncio em 1991.

No inicio da apresentação, Moacir escreve: “A crônica, oficialmente não existe. Mas como ocorre com as bruxas, há sempre alguém disposto a testemunhar que já a viu – e nas mais diferentes formas. Pode aparecer disfarçada em comentário sobre a cena política, ou como um recorte da infância”. Pode aparecer também disfarçada em comentários sobre o cotidiano, ou poema em prosa, entre outras formas, como por exemplo um diário de anotações.

O volume que estou lendo reúne crônicas de trinta autores, publicadas no jornal o Estadão de São Paulo ao longo de 100 anos. A primeira é de Raul Pompéia e foi publicada em 08-03-1892, quando eu nem pensava em nascer, e a ultima é de Raquel de Queiroz, em 11-01-1991, quando eu já trabalhava no Estadão como repórter.

Entre essas duas extremidades, aparecem crônicas de Vicente de Carvalho, Olavo Bilac, Euclides da Cunha, Amadeu Amaral, Rui Barbosa, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Érico Veríssimo, Oswald de Andrade, Alfredo Mesquita, Afonso Schmidt, Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Vivaldo Coaracy, Guilherme de Almeida, Lygia Fagundes Telles, Luís Martins, Gustavo Corção, Caio Fernando Abreu, João Antônio, Raul Drewnick, Fernando Sabino, Ariovaldo Bonas, Augusto Nunes, Luís Fernando Veríssimo, Rubem Braga, Osmar Freitas Jr., e Paulo Francis.

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