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20.9.10

ALICE GOMES - ENTREVISTA

ALICE GOMES

BIOGRAFIA

Nasci em Arapongas, no Paraná, em 20 de abril de 1956. Fui registrada como Alice Aparecida Gomes, mas gosto eventualmente de substituir o “Aparecida” por “De Mari”, que é o sobrenome da minha mãe. (A promessa é dela e o trauma é meu. É uma longa história). Sou a mais nova de sete filhos da minha mãe e mais três, por parte de pai. Tenho uma filha e três netas. Resido em Porto Velho, Rondônia.

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - QUAIS AS SUAS OUTRAS ATIVIDADES, ALÉM DE ESCREVER?

ALICE GOMES - Sempre digo que sou contabilista por formação e poeta por predestinação. Atuei na área contábil por quase trinta anos e hoje trabalho no setor financeiro do Jornal Diário da Amazônia. Ou seja, levo uma vida bem medíocre, como a maioria dos poetas vivos.

SELMO VASCONCELLOS - COMO SURGIU SEU INTERESSE LITERÁRIO?

ALICE GOMES - No ventre de minha mãe, acho. Um dia desses, me pediram para descrever o que é a poesia para mim e não soube o que responder. Ela faz parte de mim, assim como minhas orelhas ou minhas bochechas. Trabalho para sobreviver e exerço o meu lado prático com muita competência, sem falsa modéstia, mas a cada vez que olho pra dentro de mim, ela está lá. É um outro eu, com quem gosto de conversar, às vezes. Hoje penso que seria poeta de qualquer maneira, mesmo que nunca escrevesse nenhum verso. Poesia é o meu modo de ver a vida.

SELMO VASCONCELLOS - QUANTOS E QUAIS SÃO SEUS LIVROS PUBLICADOS?

ALICE GOMES - Nunca publiquei livros, e até mesmo a exposição de alguns dos meus textos é algo bem recente. Sempre escrevi de mim pra mim, entende? Há alguns meses, o editor do jornal onde trabalho me ofereceu um espaço para publicar uma coluna (Cantinho da Alice), A proposta da coluna é que ela seja despretensiosa, não se iluda. Mas esse convite me proporcionou a oportunidade de experimentar outras formas de textos, como as crônicas, e também de exercitar a minha veia humorística.
Meu plano para livros sempre foi o de esperar a minha aposentadoria (faltam alguns meses!), para me dedicar exclusivamente à literatura. A pobreza faz dessas maldades com a gente, mas tem o seu lado bom, pois a quantidade de fatos vividos, sonhados, chorados e até amaldiçoados, durante toda a minha vida, me dará subsídios reais para deixar escrita a minha história, sem muito esforço. Tenho muito material guardado nas gavetas e na memória. Talvez não o tivesse tanto se a minha vida fosse diferente do que foi. Quanto a poesias, dentro de mim existem muitas rimas solitárias, esperando por seus pares, e eu sei onde eles estão É por isso que eu tenho certeza de que muitos livros virão.

SELMO VASCONCELLOS - QUAIS OS IMPACTOS QUE PROPICIAM ATMOSFERAS CAPAZES DE PRODUZIR POESIAS?

ALICE GOMES - Para escrever só preciso de tempo (despreocupação com outros afazeres) e privacidade. Dias chuvosos me fazem lembrar de outros dias chuvosos, felizes ou infelizes, mas também me fazem pensar no que dias chuvosos fazem no cotidiano de outras pessoas. E assim, se a poesia será melancólica ou se será sobre um tema social, depende do que me proponho a escrever no momento. Não quero dizer que dias chuvosos criem atmosfera para se produzir poesias, foi só um exemplo. Libertar a imaginação talvez seja o segredo.

SELMO VASCONCELLOS - QUAIS OS ESCRITORES QUE VOCÊ ADMIRA?

ALICE GOMES - Sempre gostei de ler. Já lia antes mesmo de entrar na escola, mas vou te confessar uma coisa: tenho péssima memória para relacionar o autor à obra. Também nunca tive paciência para ler romances longos e de escrita rebuscada, de modo que li muito pouco dos autores mais famosos, exceto aqueles de leitura obrigatória no colégio. Mas, se você me perguntar quais eram os temas dos livros que li, não sei te dizer, porque o meu olhar para os livros sempre foi direcionado para a construção das frases e não para a história.
Um que sou absolutamente apaixonada é Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), mas só o conheci aos trinta anos, acredita? Aliás, ele foi o responsável por eu ter ficado mais de dez anos sem ter coragem de escrever nada. Comparava meus poemas com os dele e jogava fora os meus, por vergonha.

SELMO VASCONCELLOS - QUAL MENSAGEM DE INCENTIVO VOCÊ DARIA PARA OS NOVOS POETAS?

ALICE GOMES - Tão importante quanto a inspiração é o vocabulário. Incorpore palavras novas, Um bom vocabulário dispensa palavras desnecessárias, além de deixar a mensagem mais precisa. Procure aprender o básico de concordância verbal e muito cuidado com a grafia correta. Não há nada mais deprimente para o leitor que uma boa ideia desperdiçada num português ruim.
Escreva sempre que puder. Qualquer coisa. Aprenda a brincar com as palavras, torne-se íntimo delas. Um bom exercício é construir várias frases diferentes para o mesmo conceito. Só a prática refinará o estilo. Não tenha vergonha de fazer poemas. As maiores obras dos grandes poetas da História com certeza não foram as primeiras que eles criaram. Só os mostre para outras pessoas quando sentir que não há mais nenhum retoque a fazer. E quando os mostrar, não se deixe abater por críticas desagradáveis. Talvez a falha esteja no leitor e não nos poemas. Se esta for a sua verdade, um dia eles encontrarão o leitor que os estava esperando. E mesmo que ninguém nunca os compreenda, ainda assim serão seus. Os poemas são fotografias da alma. Faça o seu álbum.
Não tenha pressa de publicar seus poemas. Um dia, quando você menos esperar, alguém como Selmo Vasconcellos cruzará a sua vida.

POEMAS

Difícil escolher quais dos meus filhos irão para o front. Por segurança, deixo alguns que você já conhece.

CALENDÁRIO MENTAL

Há pessoas que passam pela vida da gente
e a sacodem de um jeito, que revira a cabeça!
e se tem a certeza, que por mais que se tente,
nunca mais será a mesma.

Que explodem conceitos, que derrubam defesas,
que descobrem na mente o que a alma deseja
que convidam ao risco
e transformam pra sempre, o que estava previsto.

Quando tudo o que se lembra e se busca no tempo
é delas ‘antes ‘ ou ‘depois ‘
é aí que se atenta que passou o vendaval
mas dividiu-se em dois o calendário mental

Já é tarde demais para o que era antes
e as velhas verdades já ficaram pra trás
pois assim que se vão
já se perdeu o chão para a realidade

Ficam tão evidentes, tão distintas as duas vidas
que, no inconsciente, não se sabe mais qual
dos dois mundos se habita:
o que é morno e real
ou o que assusta e excita.

Há pessoas que passam pela vida da gente
e a transformam pra sempre.

LEMBRANÇAS

Quando se lembra de alguém muito querido
não só é de atos cometidos
mas dos “quase” também,
dos sonhos que se tinha e tem;
do que teria sido, pela possibilidade.
A realidade, às vezes, nem importa
das quimeras é que se recorda;
Das juras, das esperas, das loucuras inventadas,
do olho que brilhava, do coração acelerado.
Quando volta o passado,
não só traz o amado
mas outro de nós que lá estava
( o que contracenava)
E, se não houve, com a força que merecia,
que fique a lenda, o faz-de-conta, a fantasia.

CONIVÊNCIAS

Há quanto tempo você permite o que te aflige ?
- Quanto você resiste?
Há quanto tempo você acolhe o que te encolhe ?
- Quanto você engole ?
Há quanto tempo você suporta o que sufoca?
- Quanto você concorda?
Há quanto tempo você atura o que tortura ?
- Quanto você empurra?
Há quanto tempo você cobiça o que dormita ?
- Quanto você cochicha ?

Há quanto tempo? Há quanto tempo?
Há quanto tempo você releva?
- Represa ? - Resseca ?

Há quanto tempo ? Há quanto tempo ?
Há quanto tempo você deriva ?
- Hesita ? - Se estica ?

Há quanto tempo você delega o que espera ?
- Há quanto você tolera ?
Há quanto tempo você apanha o que derrama ?
- Há quanto você se acanha ?
Há quanto tempo você lamenta o que remenda ?
- Há quanto você agüenta ?
Há quanto tempo você disfarça o que esgarça ?
- Há quanto se agacha ?
Há quanto tempo você abafa o que te engasga ?
- Há quanto se arrasta ?

Há quanto tempo ? Há quanto tempo ?
Há quanto tempo você adula ?
- Segura ? - Enruga ?

Há quanto tempo ? Há quanto tempo ?
Há quanto tempo você não responde ?
- Se corrompe ? - Se esconde ?

Há quanto tempo ? Há TANTO tempo !

Quem se omite ( há tanto tempo) permite
Quem se esquiva (há tanto tempo) se priva
Quem se sujeita (há tanto tempo) aceita
Quem se presta ( há tanto tempo) atesta

Sacuda ( há quanto tempo) sacuda
sacuda o que você ajunta (há tanto tempo)
Acuda ( há quanto tempo) acuda
Acuda o que você afunda (há tanto tempo)
Assuma (Há quanto tempo) assuma
Assuma o que você resmunga (há tanto tempo)
Assuma ( há tanto tempo)
Assuma ( há tanto tempo)
Assuma
Assuma
Ass
Suma

CARTA PARA RUI

Era uma vez
um amigo, desses que muita gente tem,
de todas as horas, sempre ao lado
um amigo dedicado –

Era assim,
Eu tinha um amigo e ele era bem assim,
mas tinha qualquer coisa de errado
meio que desajustado –

Tinha bom senso de humor,
um tanto sonhador,
o olhar dividido
que eu nunca entendi –

Tinha um jeito carente,
uma angústia latente
por qualquer motivo
que eu nunca descobri –

Como se algo faltasse
e o desorientasse, sem que ele quisesse
Como se alguém o chamasse,
se alguém o tirasse de onde estivesse
e nunca era ali –

Era uma vez
um amigo, desses que você tem talvez,
e perde, mundo afora, põe de lado
um amigo dedicado –

Era assim
Eu tinha uma amigo e fiz com ele bem assim
Pois tinha qualquer coisa de errado
meio que desajustado –

Algumas cartas mandava
e sempre me cobrava
que eu não respondia
eu nunca escrevi –

Só eu sei como lamento
não ter tido tempo
de ouvir o que dizia
eu nunca pressenti –

Um dia tive notícia:
ajustou-se ao seu modo, o meu pobre amigo
e, dentre as suas relíquias,
na foto, um passado que eu tinha esquecido
e nunca mais o vi –

E foi assim:
esta é a história de um amigo que perdi
que tinha qualquer coisa errada
mas pra sempre ajustada –

“Bastava uma só palavra “

RAÍZES

Massacradas as tuas raízes
abertas nossas feridas
causadas por sonhos de paz
à espera das cicatrizes,
(que são dores esquecidas),
pra não ter que doer mais.

És um imenso e derivante veleiro
tua honra adormece
e nossa angústia é covarde.
Aquele orgulho de ser brasileiro
não por causa, mas apesar de
quase esmorece.

Se o teu brio emergisse
desse lago de hipocrisia
em que repousas, entorpecido
e se teu povo descobrisse
a força que tem, sendo unido
meu Brasil! que bom seria.

Brasil, Brasil! O que te espera?
se os teus olhos tão distantes
maravilham outras rotas
imersos em tuas quimeras.
e nós, indecisas gaivotas,
em descarnados vôos rasantes

É inevitável o naufrágio
que ronda o teu destino.
À deserção impelidos
por esse triste presságio
em nosso respeito tolhidos
neste total desatino

Se te nutres de indolência
e nós, de migalhas vivemos
o que esperarmos de ti?
Indaga, pois, a tua consciência:
Se não formos brasileiros aqui,
onde é que os seremos?

alice.diario@hotmail.com

1 Comentários:

  • Que hei de dizer desta mulher
    poeta
    de palavras conciência
    pingando aos nossos olhos
    feito poesia?

    Melhor que lê-la, seria meditá-la,
    pois que há sabedoria
    em suas palavras,
    há vida em seus versos.

    Aproveitando o momento
    pré eleições


    "...Se te nutres de indolência
    e nós, de migalhas vivemos
    o que esperarmos de ti?
    Indaga, pois, a tua consciência:
    Se não formos brasileiros aqui,
    onde é que os seremos?"...


    É, Alice vira os espelhos
    do avesso...

    E o Selmo tem mil olhos
    sobre o Sinai
    parabéns, mestre,
    te amo.

    Por Blogger Carmen Regina Dias, às 12:01 PM  

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