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3.8.10

ILMA FONTES - ENTREVISTA

ILMA FONTES

Ilma Fontes, colaboradora e membro da Galeria dos Amigos do Lítero Cultural em Aracaju, SE. 1ª participação no M.L.C./L.C. : 8 de julho de 1994, M.L.C. nº 159.
Me senti poeta quando fui publicado no “O Capital”, onde Ilma dirige com brilhantismo ( Selmo Vasconcellos ). Assinatura : Av. Ivo do Prado, 948, Aracaju, SE – 49015-070.

BIOGRAFIA

Ilma Mendes Fontes – (10/04/1947) – Aracaju/SE

Psiquiatra e Legista, trocou a Medicina por Jornalismo, Cinema e Ativismo Cultural.
Publicou os livros: “Melhor de Três – Roteiros para Cinema”/1987 e “A Fúria da Raça” – Roteiro para Seriado de TV (1997). Escreveu, produziu e dirigiu junto com Yoya Wurch os filmes: “Arcanos (O Jogo)” (1980) e “O Beijo” (1980). Produtora, roteirista e diretora do curta “A Taieira” (1986), do seriado de TV “A Última Semana de Lampião” (1986). Dirigiu o Departamento de Produção da TV Educativa de Sergipe (1984/1987), onde fez inúmeros documentários e direção de cinco programas semanais: TeleSaudade, Primeira Chamada, Som-Vídeo, Aperipê Especial e Forró no Asfalto, além de produzir e dirigir todos os vts institucionais da TV Aperipê – Canal 2; Prêmio Anchieta de Teatro – Festival Nacional de São Mateus/ES – “A Fina-Flor”, em parceria com Yoya Wurch, com quem roteirizou o filme “Minha Vida em Suas Mãos” – longa-metragem filmado e lançado no Rio/2001, produzido e protagonizado por Maria Zilda Betlhem. Pesquisou e reconstituiu o período histórico de 1575 a 1595, para o roteiro original “A Fúria da Raça”, escrito em 1987 e publicado em 1997. Participou da pesquisa para roteiro “Foliar Brasil” de Carolina Paiva/2004, ambientado/filmado na Bahia/Sergipe/Amazonas.

Presidente do Conselho Municipal de Cultura (1995), Presidente da Funcaju (1996), Vice-Presidente do Conselho Municipal de Cultura (1997), Membro do Conselho Estadual de Cultura (2001-2005), Membro do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (2003-2004). Membro do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, do Sindicato dos Artistas e Técnicos RJ. Membro da diretoria da Associação Sergipana de Imprensa – ASI; Fundadora do SATED/SE; Membro do Sindicato dos Jornalistas de Sergipe (DRT 431/SE),do Sindicato dos Radialistas SE; Membro da Sociedade de Cultura Latina do Brasil; da Internacional Writers Associaton - IWA/EUA; da Poebras Salvador/BA; Membro fundadora da Casa do Poeta de Aracaju (2006). Fundadora da Associação Sergipana de Psiquiatria (1974); Diretora da Clínica Adauto Botelho (1976). Fundadora dos Jornais Folha da Praia (1981), com Amaral Cavalcante; Vídeo Artes News (1987), com Alfredo Mendonça; Pipiri – O Jornal da Cultura/PMA/1986, com Lânia Duarte. Editora da Revista da SCAS, com Amaral Cavalcante (1981); Fundadora/Editora do Jornal O Capital (1991). Prêmio ASI de Direção de Teatro/1995 com a peça “As Criadas”, de Jean Genet. Prêmio Arlequim de Mármore/UFS/1995, Direção de “As Criadas”; Sócia fundadora e Vice-Presidente da AMART – Associação Amigos da Arte através da qual editou a Série “Arte e Vida” de artistas plásticos sergipanos e “Zé Peixe – Uma Vida no Mar”, além de vários projetos e eventos, com destaque para o Cantinho da Arte Unimed, Cantinho Cultural dos Correios, Espaço Cultural da Assembléia Legislativa/SE, da qual é curadora.

Dirigiu o Complexo Cultural Lourival Baptista - da Secretaria de Estado da Cultura de Sergipe, onde reativou e coordenou os Prêmios Santo Souza, de Poesia e Núbia Marques, de Contos – 2003-2004. Dirigiu a Galeria Horácio Hora/SEC, 2003/04.

Participação em incontáveis júris de Teatro, Música, Poesia, Literatura, Fotografia, Cinema e Vídeo, destacando: Júri do Concurso de Roteiros do Rio-Cine Festival em 1984 e 85; Júri do Prêmio SESI de Teatro em Brasília/DF, 1995; Júri do Prêmio Multicultural do Jornal Estado de São Paulo 2001 e 2002; Júri do Prêmio Sociedade de Cultura Latina do Brasil, 2005; Fundadora do Prêmio Capital de Resistência ao Ordinário e coordenadora, desde 1997. Textos e poemas publicados em impressos nacionais e internacionais, como “Anto – Revista Literária” editada em Lisboa pelo Gabinete Português de Leitura; New Wave – IWA/Ohio/EUA; II Convívio, do Sul da Itália; La Circulair, da Tunísia; Perigrama, de Atenas/Grécia; The Moon Light of Corea, de Seul; New Poetry of the World, China; Dimensão – Revista Ibero-Americana de Poesia. Participa de diversas antologias nacionais, como “Nova Poesia Brasileira” – org. Olga Savary/RJ/1992; livro “Rimbaud no Brasil” – org. Carlos Lima/RJ/1993; antologia Poesia Sergipana do Século XX – org. Assis Brasil/Imago/RJ/1998; Catálogo da Produção Poética nos Anos 90 – org. Leila Míccolis/RJ/1995; Álbum de Sergipe – org. Benvindo Salles de Campos/1989; Revista da Poebras Salvador/BA, 2002/03/04/05.

Homenagens: Medalha da Ordem do Mérito Serigy – Oficial – PMA/1996; Medalha do Mérito Parlamentar – Assembléia Legislativa de SE/2003; Medalha Sílvio Romero da Academia Sergipana de Letras/2003; Medalha do Mérito Cultural Ignácio Barbosa/PMA/2005. Eleita “Mulher do Século XX” pelo SESC/SE/2001; Comenda da Integração Mercosul/Bento Gonçalves/RS/1995; Prêmio Ativista Cultural da União Brasileira de Escritores/RJ/1997; “The Best of the World - Journal Cultural” O Capital/IWA/EUA/1995. Senadora da Cultura pelo Congresso da Sociedade de Cultura Latina - Seção Brasil/SP, diplomada em 11 de maio de 2004. Servidora municipal lotada na Funcaju. Curadora do Espaço Cultural da Assembléia desde 2003.

ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

ILMA FONTES - Curadoria de exposições em Espaços Culturais, Editora do Jornal O Capital, Funcionária Pública municipal.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

ILMA FONTES - Sou de família (Fontes) de escritores e poetas, fui incentivada pelo meu pai à leitura logo na infância.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

ILMA FONTES - "Melhor de Três", roteiros para cinema; "A Fúria da Raça", roteiro para seriado de TV, não tenho livro de poesia publicado, mas participo de um sem número de antologias (vide curriculo).

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesia ?

ILMA FONTES - Fumar um baseado ao cair da tarde para virar a página do dia.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

ILMA FONTES - Mia Couto, Fernando Pessoa, Jean-Paul Sartre, Nietzsche, João Ubaldo, Nícolas Behr, Miguel de Cervantes, Audus Haxley, Georoge Orwell, Antonin Artaud, Baudelaire, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Rose Marie Muraro...

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

ILMA FONTES - Antes de trabalhar a palavra para ser um bom poeta, trabalhar o ego para ser uma boa pessoa. Porque não adianta você ser bom em qualquer coisa se antes não for uma boa pessoa.

POEMAS

Emoções Baratas

Sabe meu bem, eu não tenho nada contra quem.
a questão é não negar. não medir. nunca.
hoje ou depois de ontem, o dia é o seguinte.
seqüências. conseqüências. hipotenusas ilusões.
você tanto pode dizer sim como não.
sim, mas não me peça que eu saiba.
sorvo o meu desespero a qualquer semelhança.
e não me diga que você também não dança.
convenhamos: conivências, conveniências.
são as essências de tais insatisfações.

Insight. ensaio uma forma de falar de amor.
a velha palavra gasta: amor.
eu te homo. e me dá um branco total.
não sei. leia na bula. se borbulhar engula.
uma loucura, sim, ainda há cura.
na procura, no fundo das profundezas.
“é na subida que se sente o ronco do motor”.
mas não pense que é vantagem chegar aonde estou.
estou por qualquer. pense e tenha.
se esfregue nessa lâmpada de Aladim.
caia em si. caia em mim.
mas por favor, não caia na minha.
se não enxergar essa espinha
que me atravessa o peito
como um defeito que não tem jeito.

o dever de rever sem revanche
avalanche de dizer: me jante
como a terra, sedenta de sangue,
me sugue, me sangre, me estanque
wellcome aos caminhos infinitos dos meus mangues.

Ilma Fontes

Da série Pornografando Drummond

Confidência da Aracajuana

Há anos morri em Aracaju,
principalmente no dia em que nasci.
Por isso sou gay, orgástica: de nuvem.
Dois por cento de cajuína na alma
dois por cento de fel nas calçadas
e esse alegramento do que na vida é
pluralidade e solidão.

A vontade de amar, que me impulsiona
o trabalho, vem de Aracaju, de suas noites
azuis onde sobram mulheres e horizontes.
O hábito de mexericar, que tanto dilacera,
é amarga herança aracajuína.

De Aracaju levei poucas prendas
que posso oferecer: um búzio sujo
de petróleo, que trago no peito
um pensar desembestado como um defeito
essa falta de jeito, nenhum sofá
nem sala de estar, nada em volta.

Tive mesas, tive cadeiras, tive divãs!
Hoje, não sou funcionária pública. Nem
médica psiquiatra. Jornalista por ofício
com vício de cineasta, viro
o videócio na videocidade. Saudade.

Aracaju é apenas um cu
- mas como dói!

Ilma Fontes

Bilhete de Amiga

Não me queira mal
Não me queira tanto
Logo virá o desencanto
E não tenho mais palavras
Para agradecer o silêncio
O vazio de pessoas
A ausência redentora.

Lavei aquele coração de plástico
Onde está escrito “eu te amo”
- presente de uma amiga –
soprei o ar até completar o cheio
e pendurei-o num prego existente
na porta de entrada, que também é saída.
Ali ele está, presente, sempre, e tanto
Que nem se vê e nem se sente, pronto
Para se encher de poeira e murchar
Novamente,
Até a próxima encarnação.

Ilma Fontes

Ir Reverência

Senhor do indigesto
do estarrecido
do insuportável

Senhor dos desgarrados
dos destemidos
dos desgraçados

Senhor do diferente
do errado
do incerto

Senhor dos desertos
Sois o mesmo da coisa certa
Que me acerta o peito
Quando me perco?

Senhor do esterco!

Ilma Fontes

Declaração dos Direitos Universais da Mulher

Toda mulher tem o direito de pensar por si mesma
sem precisar concordar com tudo que já foi dito.
Toda mulher tem o direito de menstruar em paz
sem precisar dar explicações a ninguém.
Toda mulher tem o direito de ser alguém, com idéias próprias
e ser dona do seu destino e do seu silêncio.
Toda mulher tem o direito de dizer bobagens e cometer erros
sucessivos até acertar, na poesia ou na vida.
Toda mulher tem o direito a comer o pão que o diabo amassou
desde que seja por amor.
Toda mulher tem o direito de ser querida, ao menos uma vez na vida
e de ouvir “eu te amo”, mesmo que seja mentira.
Toda mulher tem o direito de tentar e realizar, querer e fazer,
casar e descasar, experimentar e ousar.
Toda mulher tem o direito de decidir se tem ou não um filho
Principalmente antes de fazê-lo.
Toda mulher tem o direito pleno e absoluto do seu corpo
podendo inclusive envelhecer com ou sem cirurgia plástica.
Toda mulher tem o direito aos seus cabelos brancos, mesmo que os pinte.
Toda mulher tem direito a ter medo de cobra, aranha, barata, rato e fotógrafos.
Toda mulher tem direito ao recato de não precisar expor seus segredos.
Toda mulher tem direito a ter segredos.
Toda mulher tem o direito de dizer Não, seja ao marido, à amiga ou ao patrão.
Toda mulher tem direito a ter um caso de amor, seja lá com quem for.
Toda mulher tem direito a gostar de seda e cetim,
de vinho, whisky, vodka ou gim.
Toda mulher tem direito a uns quilinhos a mais nos quadris.
Toda mulher tem direito a “fechar” o trânsito,
desde que seja funcionária do Detran.
Toda mulher tem direito a gastar mais do que pode, uma vez por ano.
Toda mulher tem direito a férias de si mesma, para o seu próprio bem
e dos outros também.
Toda mulher tem direito a uma cama macia, em boa companhia,
seja de noite ou de dia.
Toda mulher tem o direito de sonhar.
Toda mulher tem o direito de ser única.
Revogam-se as disposições em contrário.

Ilma Fontes

Música Urbana

Agora é tarde. Não jogarei a minha alma a seus pés nem beijarei a
sua sombra e jamais serei a sombra do seu cachorro. Como o corvo
de Allan Poe, digo: nunca mais, nunca mais. Não ouvirei você dizer:
louca, seus beijos são tão universais, animais, radicais, sem iguais...
agora é tarde, não beijarei a sua boca. Não pedirei a cabeça do
profeta na bandeja nem dançarei mariposa em torno da luz, cega de
amor, me botando na cruz, morrendo por seu olhar, jamais. Não terei
mais o que nunca tive menos. Andei tanto para trás que encontrei-
me antes de você. E agora, digo; quem não lhe quer sou eu. Passei,
passou, passamos do ponto de encontro. Perdi o bonde chamado
desejo. Meu coração, não sei porquê, já não bate feliz quando lhe
ver. Meus hormônios não se derramam no veio sanguíneo. Foi-se o
instinto assassino. Normal, tudo fica igual quando você passa por
mim e nem olha, como coisa que eu fosse ninguém. Músicas
urbanas. Nada de nada, noves fora eu.

Ilma Fontes

SuperEgo

Uma hora eu quero tocar o barco pra frente
Noutra, quero virar o barco e afogar toda gente.

Horas eu passo sem temer, sem rir, sem falar
Horas morro feito cigarra, estourada de cantar

Por vezes posso ser a Bela da Tarde
Por outras posso ser o fantasma da Liberdade

Algumas vezes mar sereno, sem ondas, sem espuma*
Freqüentemente ressaca, maremoto, céu de brumas

Numa hora quero ser eterna, dura, diamante
Noutra sou poeira, passante, sem dia nem hora,
Sem amante sem noite e sem calmante
Só eu só
- E ainda assim, sou mais eu.

Ilma Fontes

* Verso de Júlio Salusse no poema “Os Cisnes”

Rolando Pedras

Os tempos duros
A grana curta
Os sonhos vastos
A vida magra
A carne murcha
Solidão grassa
E aí? Tá pior,
Tá Miro?
Tá Leminski ou
Tá mais pra Maiakoviski?

A Poesia pela hora da Morte!

Ilma Fontes

Oração para Todas as Mulheres do Mundo

Minha Nossa Senhora do Improviso, dai-nos um bom sorriso e a
possibilidade de pagarmos o dentista com um punhado de poesia.
Santa Maria dai-nos alegria, mesmo diante de panela vazia.
Minha Santinha do Escapulário vigiai os nossos ovários.
Santos Apóstolos dos Povos Drogados, dai-nos diversão e arte... e
compreensão de ambas as partes.
Santa Letícia livrai-nos de ser notícia na página policial por agressão
física, mental ou verbal.
Santa Virgem do Menino de Praga livrai-nos dos maus-tratos dos
homens e das mulheres ingratas.
Santa Cecília das Fontes Límpidas fazei com que todas as mulheres
do mundo, ao menos uma vez na vida, sejam beijadas e ouçam “eu
te amo” – e que seja verdade ou mentira sussurrada, mas que seja
real naquele instante.
Senhora Mãe das Marés Rasas dai-nos fôlego, dai-nos atalhos para
vencer os atrasos, as intrigas, as falsas amigas, o falso salário, os
tolos e os abestados, funcionários e patrões.
São Tomé dos Desacreditados livrai-nos dos tagarelas que vivem a
inventar a vida alheia e torcer os fatos.
Santo Antônio dos Otários Caídos livrai-nos dos maus maridos.
Santa Rita do Siri Mole livrai-nos de todos que engolem sapos e
arrotam carro esporte e iate.
Senhora dos Espinheiros, livrai-nos dos editores bem intencionados
e dos revisores também, porque eles existem e podem até matar um
morto, enquanto vivificam outros zumbis da literatura nacional.
Santo Onofre do Pezão, não deixai cair em tentação a mão que
assina as contas públicas, dá-lhes justiça! Dá-lhes prisão.
São João da Cana-Dura, guardai os perdulários, os prevaricadores,
os dilapidadores dos cofres federais, estaduais e municipais.
Senhor dos Encontros tardios, dai uma mulher para quem tem frio!
A Solidão é uma mãe ausente, portanto Senhor dos Descontentes,
dá-nos uma cama macia e boa companhia todos os dias, para
sempre, e à nossa mãe, também.

Ilma Fontes

Fundo Falso

Descolamos o falso fundo da realidade e a vida vazou pela fenda da
poesia. Desfocamos o amanhã e perdemos todas as certezas de
conforto e futuro. Regamos com vinho verde as dúvidas maduras e
cultivamos abstinências em segredo. Prendemos as divas na mesma
caverna das musas escusas e mudamos o assunto para coisas que
nem conseguimos falar. Ficamos com as cachorras. Deixamos o
tigre na dispensa e dispensamos a cozinheira para o banquete dos
deuses finitos. Fritamos a mágica com as mágoas e dobramos a força
da loucura comendo as unhas do esquecimento. (Perdão: não
esquecemos o que perdoamos). Perdemos algumas velhas
lembranças em favor da desmemória total do presente descontente.
Não comemos a salada de dívidas feita com os carnês e cartões de
créditos dos contumazes perdulários. Demos a volta por baixo,
deixando a onda passar e se arrebentar com quem foi nela. Ficamos
submersos, mas estamos inteiros e com fôlego treinado ao sufoco. E
anoxia, rezamos o rosário de desculpas costuradas na linha férrea
dos zangões. Confinamos o absurdo nos textos e poemas
impublicáveis. Secamos flores raras em quadros reveladores. Restou
uma folha desidratada pousada num vidro sem reflexo, para a
memória de nós. Jogamos ao mar cartas lidas. Ficou um
envelope cheio de momentos e circunstâncias indecisas. Uma
bagana com marca de batom bom mantém o diálogo na linguagem
muda dos prazeres saciados. Cumplicidades nos espreitam de longe
para manterem independência na forma de nos contextualizar,
quando necessário. Ousadias nem sempre pagam o preço em risco
de vida e morte, mas tem traços nesse troço que denunciam os
destroços naufragados dos nossos submarinos (instantes) amarelos.
E quando digo isso uma pedra cai no teto do meu quarto de lua,
vinda de um meteorito metido a rico, que risca o céu numa
cartografia de impacto imprevisível.
Concluímos: ter sucesso é estar perdido na volta?

Ilma Fontes

Amigos à Parte

Um amigo é um pedaço do que somos no espelho.
Num olhar de esgueiro, o espelho reflete surpresas,
Embora nos revele sempre os mesmos.
Um silêncio que passa por baixo do vidro
Por dentro do brilho do outro olho no aço alheio.

Um companheiro quando se torna inimigo se excede
em suas sobras, sobretudo quando saboreia a ceia
das suas vitórias e torce por sua queda e arrota sua derrota.
Um ex-amigo é um atalho para o atoleiro.

Um amigo é uma linha reta, uma festa, por inteiro
Nenhum retalho em volta. É um poço e um rosto
Refletido no abismo. E quando morre o amigo,
Sobra no espelho aquele que mais perdemos na vida,
Nós mesmos.

Ilma Fontes

1 Comentários:

  • Ilma Fontes está perdida nesse mundo estragado. Merece o paraíso dos grandes intelectuais.
    Abraçops, Djanira.

    Por Anonymous Anônimo, às 6:19 AM  

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