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26.1.09

MOMENTO LÍTERO CULTURAL

SELMO -QUEM É E O QUE FAZ VANIA AMADEU DENTRO E FORA DA LITERATURA ?


VANIA AMADEU - Nasci no Rio de Janeiro, mas fui criada em Brasília, DF e me considero "Candanga". Amo Brasília.

Quando criança minha mãe lia muito pra mim. Lia de Monteiro Lobato, Erico Veríssimo, Castro Alves, Gonçalves Dias, Augusto dos Anjos, José Mauro de Vasconcelos, a Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes. Eu adorava. Ficava quietinha, ouvindo atentamente.

Despertado o gosto pela leitura, passei eu mesma a ler bastante e com 11 anos comecei a escrever meu primeiro livro. Na adolescência, meus escritos agradavam a professores, colegas e até adultos do círculo de amizade da família. Uma amiga de minha mãe gostou tanto, que quando eu tinha 12 anos, convenceu os membros da Academia Brasiliense de Letras a avaliarem meus escritos. Lá fui eu, então, convidada a apresentar meus singelos trabalhos para uma avaliação do meu potencial. Foi uma experiência um tanto quanto... assustadora para uma criança de 12 anos, mas fui, toda arrumadinha e tímida, a frente daqueles senhores, cuja idade media devia ser de uns 90 anos. Eu tinha a noção exata do que estava se passando. Até que recebi uma avaliação interessante, escrita a mão em um cartão com o timbre deles, reconhecia meu potencial e me aconselhava a escrever é um exercício e que eu nunca parasse de escrever para desenvolver mais e mais minhas habilidades e percepção. Guardo até hoje aquele cartão. Guardo tão bem que agora não sei bem onde está, mas ainda a tenho.

Durante os anos de faculdade tive um professor que me influenciou bastante. Influência importantíssima na minha vida. Influenciou a mim e aos demais colegas a desistirmos dessa teimosia de pensar que podíamos escrever. Achei por muitos anos que ele tinha razão e aqui dentro, ainda acho. Fiquei anos sem conseguir escrever ou sem gostar do que escrevia por anos. Voltei a escrever há algum tempo por ter recuperado o meu senso de teimosia, além de uma inquietação que tenho de externar tantos pensamentos e idéias. Escrever para mim tinha e ainda tem uma função de catarse, e agora volto a me beneficiar dela.

Sou formada em Biblioteconomia pela Universidade de Brasília e estudei Arte nos Estados Unidos, onde morei por 8 anos em Nova Iorque. Lá escrevia um diário, mas que era apenas descritivo. Registro das experiências vividas naquela terra. Também escrevia emails a parentes e amigos, narrando o nosso dia-a-dia. Fatos curiosos, dificuldades com a língua, diferenças culturais, o horror de Setembro 11. Nem considerava isso escrever. Escrevia o que vinha na cabeça sem nenhuma preocupação estética ou de estilo. Livre. Eram simples emails. Incentivada por uma professora de inglês, que hoje é minha melhor amiga nos EUA e assim voltei a escrever poesia e textos mais elaborados. Primeiro como dever de casa e depois pelo prazer de escrever e partilhar com os colegas de lugares tão diversos desse mundo. Mas tinha que escrever em inglês. Íamos a livrarias recitar nossas poesias e os saraus e os recitais, saiam até no jornalzinho local. Era muito enriquecedor.

Nos EUA pude ainda desenvolver outras atividades artísticas, fiz um curso de Artes Plásticas e Comerciais, depois trabalhei como designer por uns anos, quando troquei os pincéis pelo computador. Escrever estava sempre em quinto plano, mas mesmo assim arriscava colocar no papel algumas coisas.

De volta ao Brasil, aconteceu tanta coisa, que novamente me afastei das letras, mas sentia sempre a necessidade de escrever. Voltei timidamente, escrevia só para mim.

Com a internet mais e mais presente em nossas vidas comecei a pesquisar, a entrar em comunidades de pessoas que também gostavam de escrever e que começaram a me incentivar a publicar meus trabalhos online. Passei muito tempo observando sites do gênero sem coragem de publicar. Ano passado resolvi ousar postar algo no site Recanto das Letras. Fiquei surpresa com a aceitação e nunca mais parei.

Tudo o que fiz na adolescência minha mãe tinha guardado e pude revisitar e alguns até publiquei. Algumas até gosto mais do que das coisas que escrevo hoje, como "Cemitério de Pipas".

Quanto aos emails que escrevia nos EUA. Eram - sem que eu me desse conta - crônicas. Ano passado recebi um dos melhores presentes de aniversário da minha vida. Minha mãe colecionou meus emails durante os 8 anos que vivi fora e encadernou em formato de livro e me deu de presente de aniversário. Fui lendo todo aquele material e era impossível não chorar.
Agora só falta voltar a pintar.

Cemitério de Pipas

Com o vento que sopra
Com os raios que aquecem
Sobre todas as copas
Das árvores que crescem.

Flutuam as pipas
Alegria dos meninos
De todas as cores
De todos os feitios.

Mas quando menos se espera
(Isso faz parte do jogo)
Corta-se a linha da pipa
Que fica livre no vôo.

A criançada correndo
Atrás daquela rainha
Que segue a direção do vento
Sem obedecer sua linha.

Mas se o vento por gosto
Prende-a num fio de alta tensão
Vê-se estampada nos rostos
A grande decepção.

Daqueles que muito esperaram
Por ser a mais bonita
Uns até choraram
Por não pegar a pipa.

Com o passar do tempo
A pipa ali prisioneira
Perde a cor o papel,
Ficando só a madeira.

Olhando os fios eu vejo,
Os esqueletos daquelas
Que inspiraram desejos
Naqueles dias de férias.

Eu sei de COR

Eu sei de cor
Que a cor azul é dos céus e dos olhos seus

Que a cor do sol é laranja,
E a laranja é cor-de-sol ensolarado.

Verde é mar e floresta,
Flor esta que pode ser rosa.

É a cor cor-de-rosa da rosa?
Rosa nem sempre é cor-de-rosa,
Pois há rosas de toda cor.

Amarelo é a cor do meio-sorriso
por "amar-ela" escondido.

Sei de cor que preto não tem cor.
Na ausência de cor do preto,
Posso dizer que é incolor?

E que egoísta o preto,
Absorve a luz que emana do meu peito.

Sei de cor que a cor branca é toda cor
é cor do bem, da paz, do amor.

Amor vermelho-vivo é paixão e tem só um tom ajustado
Para o ódio-vermelho-sangue no amor encarnado.

Sei de cor e salteado que as cores são mágicas,
e os prismas, encantados.

Sei de cor quem furtou da cor furta-cor seus matizes,
Descolorindo o arco da minha íris.

Que agora não mais vê meu mundo colorido...
Só em preto, branco, cinza-pálido falido...

Eu Brinco

Eu brinco com as palavras
e quando posso, pinto.
Desenho no papel
em preto retinto,
letras que sinto e rabisco
em linha, em círculo
tornando em pintura
impressa no papel:
o quadro de minh´alma
em postura nua
explícita, sem véu.


REGINA LYRA


REGINA LYRA COMEMORA 10 ANOS DE INTENSA ATIVIDADE POÉTICA, LANÇANDO O LIVRO ENTRE_NÓS

Regina Lyra comemora, este ano, uma década de intensa atividade literária. Sua trajetória em livro se inicia em 1998, quando, incentivada por poetas, críticos, familiares e amigos, conhecedores do seu trabalho, publicou O Livro das Emoções, textos de uma vida inteira, pois desde a adolescência já escrevia poesia. A obra, prefaciada por Luiz Augusto Crispim, foi bem aceita pelo público e críticos paraibanos. Nestes 10 anos publicou cinco livros. Agora, brinda-nos com o sexto: Entre_Nós, poesia, pela Editora Universitária (UFPB), 2008.

Cláudio Murilo Leal (RJ), presidente do Pen Clube do Brasil, poeta e professor universitário, prefaciando o livro afirma que: [...]"Regina Lyra, neste livro emblematicamente intitulado Entre_Nós, consolida o seu nome como uma das mais interessantes poetisas da contemporaneidade. Cerca de 90 poemas compõem as cordas de uma lira que foge dos caminhos convencionais, quebra a rotina do déjà vu, e experimenta novas linguagens: uma lira que delira".[...] Mais adiante ele diz: "Regina Lyra não escreve poesia de gênero: feminina ou masculina. É uma poesia vigorosa que demonstra a coragem dos que querem ultrapassar os limites da mesmice, as fronteiras do nhenhenhém da poesia convencional. Entre_Nós foi escrito a ferro e fogo.

Uma poesia vertical, que vai fundo, que não fica boiando, sem entender o mundo e os homens. Assim, não são raras as palavras grafadas mimeticamente, como palmeiras solitárias e verticais; palavras que se destacam no poema ao produzir a impressão de uma retórica enfática, que duplica a força da palavra dentro da economia sintática do poema".

Cláudio Murilo Leal vai mais longe e observa que: [...] "Regina Lyra escreve uma poesia subjetiva, pois tudo passa pelo crivo de sua alma de poeta. Mas ao falar de si, transmite a sua generosidade para com o Outro. Ela fala de todos nós; interpreta os nossos sonhos, angústias, saudades e desencontros. Ela é a porta-voz das inquietações coletivas.

Conclui dizendo: [...] "Assim é a poesia de Regina Lyra, doce e selvagem em seus arroubos amorosos. Formalmente, ao respeitar a tradição lírica, ela sabe, ao mesmo tempo, renovar-se em um verso livre, autêntico e forte".

Ricardo Alfaya (RJ), poeta,escritor e editor, na Apresentação, destaca a importância do título e faz observações bastante interessantes: "Entre_Nós é um dos melhores livros de poesia que tive oportunidade de ler. Digo isso, tanto pela qualidade dos inúmeros poemas que me encantaram quanto em razão do fascinante, difícil e original projeto a que se propôs a autora, Regina Lyra.
A chave para a melhor compreensão da obra se acha na palavra "entrenó", que, conforme a própria Regina, constitui a principal fonte de inspiração para o título. Porém, na verdade, não apenas para o título. A partir dos significados dos substantivos "entrenó" e "nó", bem como do pronome "nós", a poeta desenvolve um belíssimo projeto, com ênfase em cinco aspectos principais:
o metalingüístico, o ecológico, o existencial, o social e o sentimental. O interessante, no entanto, é que a exploração desses temas muitas vezes se dá, de variadas formas, num mesmo poema. São os cruzamentos temáticos, as bifurcações, os "nós" que ligam diversos assuntos, idéias, orações, pessoas, sentimentos. Regina, assim, a par da própria definição do termo que inspirou a obra, situa sua poesia entre dois nós. Isto é, explora,simultaneamente, tanto as conotações positivas quanto as negativas do substantivo "nós"[...]

Adelaido dos Anjos (MS), Escritor, poeta e crítico literário, ao comentar o livro, afirma: " A escritora, professora universitária e poeta Regina Lyra, já desde o título, trabalha com jogos de palavras para conceder hábil concretude ao seu diamantino trabalho artístico-literário.

Lau Siqueira (PB), escritor e poeta, fala sobre a obra:[...]"Regina Lyra se apresenta, mais uma vez, num ato de pura liberdade de expressar-se, diante dos conceitos impávidos e colossais que, muitas vezes, concebemos; mas, não acolhemos.”

ESCURECEU AQUELA MANHÃ...

Naquela manhã de novembro
perspectiva de ir embora,
arrumar malas,
despedidas...
Vistoria na casa em agonia...

Naquela manhã de novembro...
Para trás tudo ficara,
não sabia se seria capaz
concluir o inimaginável,
comprar carta de alforria...

Sem olhar para trás,
naquela manhã de novembro,
clareava a madrugada
amanhecia o dia...
Escureceu aquela manhã...
Por vários dias...

FLORES EXTINTAS

Visita aos mortos!
Mórbido ato de viver...
Paradoxo ato da vida e morte,
atitudes maniqueístas,
levar flores, enfeites...
Mausoléus de granito.

Os mortos nunca estiveram lá!
Seus corpos sem vida,
Ente querido agora inexiste...
Flores extintas.

Lembranças, saudades
não são enterradas,
parte da vida...

ERA UMA VEZ

Menino triste...
Conta tua história,
permite tua liberdade
perante passado infeliz...

Teu pai se perdera no tempo,
na raiz do momento fútil...
Tua mãe partira no tempo,
na sombra do momento inútil...

Triste menino...
não vês a estrada,
não arriscas trem da partida...

Era uma vez, um menino triste...
Agora homem, esquecera o passado
que o tornara infeliz,
enxaguou as lembranças penosas!

Vislumbrara futuro presente,
encontrara o amor

- da mulher...

5 Comentários:

  • Amigo Selmo,
    Estar presente na sua coluna literária é motivo de alegria. Sua generosidade alegra o coração poético.
    Grande abraço,
    Regina

    Por Blogger ReginaLyra, às 8:32 PM  

  • Regina é um expoente de nossa literatura, reconhecida pelo seu inquestionável talento, não se deixa deslumbrar pela fama e está sempre disposta a incentivar e prestigiar até mesmo ao mais singelo dos escritores.

    Tenho a honra e o imensurável prazer de desfrutar de seu carisma e inestimável amizade.

    Falcão S.R

    Por Blogger Falcão S.R, às 12:34 AM  

  • Nome significativo da nossa geração, personalidade comprometida com a cultura e com a arte poética do nosso país, a irrequieta e talentosa poeta Regina Lyra prova - a cada obra autoral - que Poesia é um sopro e/terno, é o santo graal dos nossos corações, é êxtase da alma, pois é enlevo e é beleza e está no dia a dia, no incontroverso universo do harmônico encontro de versos diversos.
    Amiga de longa data e fiel companaheira de arte (já tive a honra de escrever a apresentação de um dos seus livros e comentário/posfácio em outro), Regina é esta Lyra que me inspirou a compor versos assim:

    R E G I N A

    Regina
    menina
    poesia fina

    Regina
    mulher
    autêntico-mister

    Regina
    verdade
    sensibilidade

    Regina
    beleza
    mais franca franqueza

    Regina
    irmã
    da arte de hoje
    atos do amanhã

    Regina
    rainha
    o verbo
    na linha

    palavra andarilha
    archote que brilha
    aos olhos de orfeus

    sagração
    segredos
    plumas e rochedos
    criados por Deus

    as asas azuis
    da ave que voa
    sobre João Pessoa

    eco que ressoa
    na seara boa
    de um canto-avatar

    êxtase e afago
    um cisne no lago
    estrela no mar

    fértil criação
    grã sublimação
    acácia, romã

    translúcida pira,
    pérola, safira,
    a flor na colina
    a luz da matina
    tudo o que inspira
    conhece Regina
    Ah... Regina
    Lyra!

    ® RUBENIO MARCELO

    Por Anonymous Anônimo, às 4:27 AM  

  • Olá, Regina. É uma satisfação encontrá-la aqui nessa crônica-viva da literatura brasileira que é o Lítero Cultural do Selmo Vasconcelos. De sua obra e desempenho como escritora-poeta, abstenho-me no momento de falar pois você sabe o quanto admiro a qualidade do que escreve. Cumprimento-a com alegria pelo sua tenacidade, dedicação e seriedade com que realiza seu trabalho e volta a imagem tão bem criada, não me lembro se pelo Ricardo Alfaya, ao referir-se a você como "poeta itinerante". Isso para mim também evoca e equivale ao Pe. Anchieta no seu périplo pelas trilhas da Serra do Mar, ao trabalho profícuo dos bandeirantes sendo que a Poesia é o seu estand_arte, e também como marca o Drummond, o ser "fazendeiro do ar". Aqui, tive também a satisfação de encontrar alguns/umas poetas conhecidos/as, e admirei a saga de MITSUKO KAWAI por ter conhecido de perto a luta desse povo na minha terrinha natal.
    Um grande abraço e parabéns.
    Marco.

    Por Blogger Marco Bastos, às 5:57 AM  

  • Alô Selmo,

    Satisfação ver a matéria sobre Regina Lyra, relativa a Entre_Nós, obra da qual fui revisor e apresentador. Aliás, valeu por divulgar um trecho meu sobre a Autora. Um grande abc, Ricardo Alfaya.

    Por Anonymous Anônimo, às 12:59 PM  

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