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17.7.09

MOMENTO LÍTERO CULTURAL - Entrevista com FÁBIO FABRÍCIO FABRETTI

FÁBIO FABRÍCIO FABRETTI


ENTREVISTA

SELMO - Quais as suas outras atividades, além de escrever?

FÁBIO FABRÍCIO FABRETTI: Todas as minhas demais atividades estão interligadas com a arte de escrever, criar e pensar, que é o meu ofício. Leciono Literaturas, Linguagem, Filosofia, Sociologia e Produção de Texto. Entrei para a faculdade de Letras porque queria escrever melhor, e isso me levou a dar aula. Descobri que é muito simples ser professor, quando você gosta do que ensina e ensina o que sabe. Também sou um pouco produtor e agitador cultural. E me intrometo com o jornalismo. Gosto de pesquisar, desde a minha memorável experiência no CEDOC – Centro de Documentação da Rede Globo. Ou seja, a escrita e todo o seu processo são atávicos para mim. Um vício nunca vem sozinho e sempre leva a outro! Isso é o que chamo de realização pessoal, quando você se sente satisfeito com o que faz, mesmo buscando sempre melhorar. O que é diferente de sucesso, que está ligado ao reconhecimento.

SELMO - Como surgiu seu interesse literário?

FÁBIO FABRÍCIO FABRETTI: Desde criança as letras me fascinam. A primeira palavra que consegui ler e escrever foi “faca”, que lembrava meu nome. Observava minha mãe na cozinha, preparando o almoço com aquele objeto pontiagudo, e cortando, conseguia desmitificá-lo. Trancava-me no escritório do meu pai e dedilhava a máquina de escrever, ajoelhado sobre a cadeira, debruçado na escrivaninha. Passava horas e horas criando histórias. Nessa época, escrevi meu primeiro “romance” trash, “O ataque das aranhas carnívoras”. Meu universo era povoado de histórias de terror e fábulas infantis, extraídas das tevês e livros. Na adolescência, gostava de redigir cartas com pseudônimos, disfarçando a letra e criando situações trágicas, para um programa de rádio que lia os desabafos e pedidos de ajuda psicológica dos ouvintes. Inventava personagens com os mais variados problemas. Depois me divertia com a dramática entoação do locutor e a solidariedade das pessoas, que telefonavam para a emissora querendo (me) aconselhar! Adulto, resolvi levar a sério os ímpetos criativos, e os transformei em profissão.

SELMO - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do país?

FÁBIO FABRÍCIO FABRETTI: Sou um escritor versátil, dentro do meu universo. Produzo sozinho ou em parceira, não tenho problemas com meu ego. Ao todo somo umas dez obras publicadas, entre antologias – a mais recente, “Território V” (Editora Terracota), lançada em agosto desse ano, e “O livro negro dos vampiros” (Andross Editora) – que me surpreendeu com a repercussão. Tenho obras escritas com outros autores – “Sexo, drogas e tralalá” (Sete letras) – e assistência de pesquisa em projetos – “Caio Fernando Abreu - cartas”, com Ítalo Moriconi (Aeroplano Editora) –, além de algumas publicações independentes. Lancei meu primeiro infantil – “O mistério dos livros” (Catedral das Letras) – na Alemanha e no Brasil, e descobri essa nova vertente, planejando, para breve, o segundo – “O mundo rosa de Amarelino” (Giostri Editor) – aqui e em países de língua francesa, através da comemoração do Ano da França no Brasil. Também escrevo com o amigo Eduardo Nassife a biografia da atriz Glória Pires – “Quarenta anos de Gloria” – e finalmente lançarei meu primeiro romance, ainda em segredo. Só revelo que o evento acontecerá numa agência funerária!

SELMO - Qual o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura?

FÁBIO FABRÍCIO FABRETTI: Tudo pode virar literatura, até o nada, se o autor souber fazê-lo. Tudo se transforma em arte porque o artista contém sensibilidade e perspicácia, absorção e transformação. Escrevi textos que nasceram de uma frase, palavra, gesto, imagem, cena. No meu caso, a morte é um grande gerador de insights. Interesso-me pela reação que ela provoca nas pessoas. Isso que chamamos de vida e morte são nomes criados para definirmos o indefinido. A humanidade tende a mitificar a morte e acaba por valorizá-la mais que a vida. Michael Jackson é um ótimo exemplo. Antes de morrer, estava confinado ao decadentismo, anonimato, negativismo... de repente seu nome virou símbolo de luta, orgulho e até compaixão. Por que essa necessidade de demonstrarmos afeto somente depois que a pessoa parte? Se tivesse recebido todo esse calor humano em vida, provavelmente o algoz nem teria enfartado! O mito do artista reconhecido só depois de morto é antigo e maldito, e, pelo jeito, perdurável. A morte é o tema que causa reações e sentimentos mais instigantes nas pessoas. Isso é formidável e, ao mesmo tempo, previsível! Pior do que não saber conviver com a perda é ignorar o que – ou quem – se tem. Percebeu que amamos e perdoamos mais os mortos que os vivos? Digo às pessoas não quero nem preciso de nenhuma manifestação amorosa quando morrer. Se sentem algo bom por mim, que o façam enquanto estou vivo!

SELMO - Quais os escritores que você admira?

FÁBIO FABRÍCIO FABRETTI: Admiro os meus amigos que escrevem. Cada um com sua particularidade e talento. Tenho um pseudônimo no site das Escritoras Suicidas – www.escritorassuicidas.com.br – e me encharco com a invejável profusão de textos das minhas companheiras. As novas antologias, como as organizadas pelo Edson Rossatto, Kizzy Ysatis, Claudio Zed Brites, Nelson de Oliveira e Marcelo Maluf mostram que nossa literatura é riquíssima, embora digam por aí que não se lê no Brasil. Não posso deixar de destacar também os clássicos, imortais. Atualmente tenho me deliciado com os textos de Neil Gaiman, Paul Auster, Joe Coleman e uma infinidade de autores que descubro a cada fugida às livrarias. Frequentar livrarias e sebos são minhas terapias preferidas. Ultimamente tenho me proibido dessas exorbitâncias, mas vou escondido de mim mesmo!

SELMO - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos escritores?

FÁBIO FABRÍCIO FABRETTI: Escrever – como qualquer outra arte – é a maneira mais prazerosa de pagar os pecados! Portanto, escrevam! E se redimam! Só não se iludam, pois ganharão com isso o pagamento de alguns pecados e muitos, muitos prazeres que resultarão em novos pecados!

Saiba mais sobre o autor no site www.fffabretti.com


SERMÃO DO TAMANHO DE UMA MONTANHA

Saia curta não é de Deus,
peito de fora é coisa do Diabo,
esbraveja o vigário aos ateus,
como é bom esse tal de pecado!


PORRE

Não me acorde que estou de porre.
É um porre depois do porre!
O porre é o que nos socorre.
Tem coisas que só um porre pode.
A vida é um porre,
as contas são porres,
o sexo é um porre que escorre.
O amor não é um porre, é uma porrada!


COISAS DE QUEM AMA

Segunda, terça e quarta, jura que me ama,
quinta e sexta, promete que não me abandona,
mas quando chega o final de semana
me deixa sozinho na cama!

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