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28.6.12

MARIANA VALLE - ENTREVISTA

BIOGRAFIA
FOTO : MARLA DE QUEIRÒZ
Carioca de Copacabana, 38 anos de praia, Mariana Valle nasceu para a poesia aos 12 anos, quando, num dever de casa do colégio, respondeu a pergunta da professora de português: “O que você espera?” “...Eu lhe espero / não sei se irá chegar / tentarei lhe esquecer / mas enquanto não consigo / continuarei a lhe amar.” Com incentivo familiar e escolar, Mariana não parou mais de escrever. A vida lhe trouxe apenas um pequeno hiato de silêncio, enquanto trabalhava como redatora da TV Globo e tentava conciliar o excesso de trabalho com a vida de casada. Após pedir demissão da TV Globo e reavaliar sua carreira, resolveu voltar a escrever e lançou seu primeiro livro “SORRIA VOCÊ ESTÁ NA BARRA e outras histórias”, em 2008, pela Multifoco. Logo depois, veio a separação do marido e, divorciada, de volta ao seu bairro de origem, passou a se dedicar com afinco a literatura. Atualmente, o que a sustenta não é mais o jornalismo e sim a publicidade. Trabalha com atendimento a cliente, redação, revisão e mídia, mas suas horas vagas são quase todas preenchidas com literatura, seja escrevendo, lendo ou indo a eventos. Percebeu que quando se faz uma escolha, é preciso saber arcar com as respectivas renúncias, então, seu foco hoje em dia é crescer na poesia. O resto é segundo plano. Autora das colunas “Tudo” e “Picantes” no Jornal Du Gaio (www.jornaldugaio.com) da coluna FEMININA, no site Infoconews (www.infoconews.com.br), autora e editora de poesia da revista literária SAMIZDAT (http://www.revistasamizdat.com/) e colaboradora do site Srta Sexy.

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ENTREVISTA
FOTO : PATTY ASSIMOS
SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever?

MARIANA VALLE - Sou publicitária há três anos, trabalho com atendimento a cliente, redação, revisão e mídia, mas durante a maior parte de minha vida profissional trabalhei como jornalista, sobretudo como repórter, redatora e editora de conteúdo web. E, se for pra falar de paixão, a dança não pode ficar de fora. Assim como a poesia, que está presente na minha vida desde meus 12 anos, a dança também é parte importante da minha felicidade. Já pratiquei vários tipos de dança (e até dei aula), mas, no momento, me divirto com o zouk (modalidade de dança de salão) nas horas vagas. É o meu lazer tanto quanto era o ato de escrever. Agora, escrever é mais do isso. É minha missão. Sem escrever não vivo mais não. Ops, rimou.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

MARIANA VALLE - Eu leio muito desde pequena e o incentivo dos meus pais foi essencial. Como sempre fui muito curiosa, lembro que o primeiro livro que eles me deram, quando eu tinha 7 anos, foi “Curiosidade Premiada”, de Fernanda Lopes de Almeida, e me identifiquei muito com a protagonista, curiosa como eu. Posso dizer que, pouco tempo depois, ler “Ou isto ou aquilo” de Cecília Meireles, despertou a poesia em mim, gênero que desenvolvo com mais facilidade. Mas o fato é que, desde que escrevi meu primeiro poema, aos 12 anos, por causa de uma paixonite adolescente, eu não parei mais de escrever, sendo que, de uns 4, 5 anos pra cá (hoje tenho 38 anos), tenho encarado isso de forma mais séria, tenho lido mais poesia (antes eu lia mais romances e contos) e tenho escrito com muita frequência. Tenho comparecido a eventos literários e, além de me surpreender com a genialidade dos poetas e me inspirar com essas pessoas com quem convivo afetuosamente, tenho investido mais nas minhas próprias performances no palco, incorporando o personagem poético de cada texto falado.

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados?

MARIANA VALLE - Publiquei o “SORRIA VOCÊ ESTÁ NA BARRA e outras histórias” em 2008, pela Multifoco. Costumo dizer que ele é uma “mistureba”,eclético como a geminiana que vos fala. Tem uma história com 10 capítulos, que dá nome ao livro, e o resto é uma coletânea de contos, crônicas, poemas e artigos. Na ocasião, publicaram até uma página de entrevista comigo sobre o livro no caderno Barra do jornal O Globo. Agora, depois de mudar de bairro (eu morava na Barra), mudar de emprego e de estado civil, e depois de muito só escrever sem pensar em lançar um livro, comecei a editar meu segundo livro, o “Obrigada por deixar de me amar”, agora só de poemas. Acho que o lançamento sairá esse ano.

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesia ?

MARIANA VALLE - Impactos? Olha, antigamente, quando eu não levava a poesia a sério, escrevia mais quando sofria e, principalmente de amor. Ou quando tinha raiva de alguma situação. Agora não. Escrevo sobre tudo e o tempo todo. Inclusive, uma vez, um colega escritor insinuou que eu era “poeta do Facebook” achando que ele estava me diminuindo. Coitado. Ele não tem noção do orgulho e do material para um novo livro que ele me deu, sabe por quê? O poeta não nasce por causa do lugar onde ele frequenta. Quando comecei a escrever nem existia internet, mas e daí se tivesse começado com ela? A poesia nasce do olhar do poeta, não interessa onde ele está e sim como ele vê, como ele sente e como ele transmite isso em poesia. O Facebook é um lugar onde pessoas de todos os tipos se expressam, desabafam, brigam, declaram seu amor, mostram suas convicções políticas, ideológicas... Muito do que se publica lá me inspira novos poemas. Desde as maiores futilidades até aos mais proveitosos e filosóficos bate-papos entre poetas e gente instruída e engajada que sim, também está presente no Facebook.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira?

MARIANA VALLE - Difícil responder. Dos poetas consagrados, são muitos. Um que me influenciou foi Leminsk. Meu estilo é mais contemporâneo como o dele. Outro que me encantou e me marcou foi Vinícius de Moraes, quando ganhei do meu padrinho a obra completa dele ainda pequena. São tantos que fica difícil falar, então vou destacar os ainda não muito conhecidos, meus amigo, que, na minha humilde opinião, deveriam ser não só famosos, mas, principalmente, terem seu valor reconhecido financeiramente de maneira digna. Manoel Herculano é um mestre das palavras. Caró Lago é uma menina de seus 20 e poucos que diariamente me ensina a brincar com ideias e palavras com seus poemas e frases. Ela diz coisas sérias com uma leveza que sempre me pego sorrindo quando a leio. Isa Blue é outra de vinte e poucos com quem me identifico porque, assim como eu, ela não tem papas na língua. Gosto do conteúdo, da ironia e da maneira forte com que ela defende suas ideias. Machado de Assis também me influenciou muito. E eu amo ler tudo que vem do Charles Bukowski e do Nelson Rodrigues. Martha Medeiros é outra com a qual também me identifico. Ela escreve de maneira acessível, simples, assim como a maioria do que escrevo, e também é contundente nas suas ideias apesar de o sê-lo com leveza e delicadeza de alma. E os poemas dela são ainda melhores do que as crônicas, artigos e romances que são os textos que a grande massa conhece.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?

MARIANA VALLE - Leiam, leiam muito e escrevam, escrevam sobre tudo, sem medo de errar, sem necessidade de ser o tempo todo relevante. Abertos para as mais improváveis e doidas ideias e sentimentos. Abertos a porem pra fora tudo o que passa pela mente e pelo coração é que um escritor pode nascer de verdade. O escritor só é bom quando tem liberdade. Pelo menos no que pensa e escreve, já que na vida é outra história... É preciso primeiro ter coragem, para depois usá-la com criatividade e técnica. Entrem no Facebook, conectem-se nas comunidades literárias, frequentem os eventos (são muitos no Rio hoje em dia, não sei em outros estados) e persistam no sonho de fazer poesia. Muita gente leiga acha que poesia é coisa de maluco, que não dá em nada, mas pra mim é o contrário. É a poesia que me salva da loucura que é esse mundo. E se poesia não dá em nada pros outros, é só pros outros. Porque pra mim tudo dá em poesia. Em poesia tudo dá.

POESIAS
FOTO : VITOR VOGEL
BEIJO

Quero um beijo com sabor de sexo,
explorando todas as nuances
entre o côncavo e o convexo
das bocas.
Quero aquele beijo que me deixa louca
de tanto querer.
Quero um beijo de estremecer.
Quero um beijo de lambuzar as pernas
e entorpecer a mente.
Quero um beijo diferente
dos que já me deram até hoje.
Quero um beijo como se fosse o primeiro,
beijo com saudade antecipada,
o derradeiro, com gostinho de proibido...
Quero o melhor beijo do mundo.
Demorado e profundo,
quero língua, quero tudo,
mas eu quero com você,
pode ser?


FICAMOS ASSIM (INSPIRADO EM POEMA DE MARTHA MEDEIROS)

Fica o grito
pelo não dito.
Fica o choro
pelo socorro
não dado.
Fica o futuro
no passado.
Fica a traição
pela falta de ação.
Fica o "não"
pelo excesso de "sins".
Vamos combinar assim:
fico eu sem você
e você sem mim.


SILÊNCIO

Às vezes, é preciso esvaziar espaços,
para ocupar, com outros braços,
os abraços que queremos dar.
Noutras vezes, só nos falta ar
pra respirar com calma,
limpar a alma de mágoas,
se desafogar das turbulentas águas
e suas ondas de lamentos.
O vento não leva embora nada. O tempo não é remédio.
Que tédio esses clichês! É você que tem que fazer.
É a sua mente quem procura a cura pro coração.
É a cor da ação, o tom, o “não” e o “sim”
que você começa a pronunciar em nome do fim,
do que se deve mudar.
Às vezes, é só deixar pra lá
e noutras, trazer pra cá, pra dentro.
Às vezes, as vozes não mentem,
mas é só a sua voz que importa.
É preciso trancar a porta e as janelas
e ficar em silêncio, pra se escutar.


INSPIRADO NO POEMA DO LIVRO 'VÃO' (DELMO FONSECA)

“ESCREVER CONTO NÃO SEI
Nem fazer conta
Porém
De vez em quando num canto
Faço de conta que canto
Mas isso conta?”

(______________Delmo Fonseca)


EU CONTO

Tento escrever contos
e invento histórias.
E não é que todos pensam
que é pura memória?
Isso é crônica! Ou crônico?
Muitas vezes, cômico.
Um simples conto tem
um poder supersônico
de impressionar.
Sabe o que já vieram
me perguntar?
Se meu então marido
tinha boneca inflável,
por causa dos tantos
pontos que inventei.
Os leitores não sabem
o que eu sei.
Quem conta um conto
aumenta o encanto
e confunde todo mundo.
"Que profundo, será que
ela viveu o que li?"
Eu naturalmente respondi
com gargalhada.
Parece piada.
E reagi com mais textos.
Tudo é pretexto para poetizar.
Proseio eu e conto lá.

Agora, fazer conta...
Serve um faz de conta?


EU NÃO SOU POESIA

Como é que posso deixar
você entrar no meu mundo,
penetrar no meu íntimo
profundo e fecundo,
se eu não sei o que você quer?
Eu não sou uma qualquer,
e, se lhe apetece quaisquer saias,
saiba que não sou cobaia
para testar sua fome,
exercitar seu lado homem.
Eu sou A mulher,
que sabe o que quer:
não ser mais enganada,
porque nada vale
minha desilusão.
E isso não é uma alusão
ao meu medo ou segredo.
Não é um ledo engano.
É meu plano atual.
Eu não te amo
se você não for o tal,
talvez se tal for a vez
de você me degustar
um pouco de cada vez,
com coragem, calma
e muita dedicação.
Minhas terminações nervosas
são gozozas, gasosas
e sobretudo desejosas de prosa.
Posso ate fazer poesia,
escrever contos
e pontuar micropontos
como um haikai,
mas sou muito mais
que um mero lance.
Meu bem,
eu sou romance.


FIGURAS DE LINGUAGEM

Não me interessam as figuras de linguagem
e sim as agruras que na minha língua agem
numa viagem ao fundo de minha alma.
Não quero palmas, mas preciso sim me aperfeiçoar.
Me afeiçoo a forma, não à norma.
E sobretudo ao conteúdo, que é quase tudo.
Faço poesia mesmo mudo, porque mudo meu olhar
ao rimar em silêncio, quando penso,
quando venço meus cansaços.
Vou tecendo novos traços, passo a passo,
enquanto desembaraço os nós entre nós.
Não me interessam as figuras de linguagem.
Não me interessam as figuras, a linguagem,
e sim a sua língua quando age
escrevendo ocultas mensagens
em nossa absoluta e nada culta vadiagem.


A MOÇA DO METRÔ

O que será que a moça do metrô carrega
com seu olhar triste e testa enrugada?
Não sei, mas reparo que nada do que acontece
lhe-tira essa nuvem da cara.
Será apenas sono
ou mais um abandono?
É manhã e chove.
Olhares nublados se cruzam na multidão.
O que carrega toda essa gente no coração?
Muita conta pra pagar,
necessidade de descanso
e um conformismo manso
diante da vida bandida?
Onde vai parar esse trem da vida?

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