REYNALDO BESSA - ENTREVISTA
PEQUENA BIOGRAFIA

Reynaldo Bessa é músico e escritor. Já lançou cinco CDs. O mais recente com músicas suas sobre diversos poemas de autores como: Drummond, Leminski, Auta de Souza, Alphonsus de Guimaraens, além de Fabrício Carpinejar, Ricardo Corona, Alice Ruiz entre outros. Em 2008 lançou seu primeiro livro “Outros Barulhos – Poemas” (Prêmio Jabuti 2009 - Poesia). Em 2010 foi um dos finalistas do PRÊMIO SESC DE LITERATURA , com o seu livro de contos “Algarobas Urbanas” (editora Patuá) lançado recentemente. O autor tem contos, crônicas, poemas publicados em revistas, jornais, suplementos literários pelo Brasil e exterior. Atualmente prepara seu sexto disco.
REYNALDO BESSA
contato@reynaldobessa.com.br
www.algarobas.blogspot.com
www.reynaldobessa.com.br
ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?
REYNALDO BESSA - Já fui bancário, vendedor, professor, tradutor. Uma lista enorme. Hoje sou músico e escritor. Nada além disso. Não só escrevo meus livros e faço meus shows, como também sou convidado para festas literárias, feira de livros, bate-papos sobre o meu processo de criação, faço oficinas de escrita criativa, workshops, escrevo prefácios e orelhas para editoras e jornais. Sou convidado pra falar sobre música também. Como fiz um disco só com poemas musicados, sou bastante solicitado pra falar sobre a música na poesia. Em novembro darei uma palestra na Academia Araçatubense de letras – SP. O tema será: “A música na poesia: de Timóteo de Mileto a Chico Buarque”
SELMO VASCONCELLOS – Como cantor e compositor, poderia falar um pouco sobre os seus CD’s e as fontes de inspirações ?
REYNALDO BESSA - Já lancei cinco discos: “Outros Sóis” (1994), “O Beco das frutas” (1996), “Angico” (2000), “O som da cabeça do elefante” (2004) e “Com os dentes” (2006). Este último ao vivo. Nestes cinco CDs rolaram muitas transpirações. Por vir de uma região muito rica em ritmos: o nordeste, onde ouvimos desde muito cedo o baião; xote; xaxado; repente; cordel e tantos outros, sou conhecedor e fascinado por esse universo, mas ao mesmo tempo estou sempre aberto a novas experiências. Gosto de ouvir uma coisa boa que alguém lá do outro lado do mundo acabou de lançar. Assim tento encontrar uma síntese disso tudo. Esse é o meu grande desafio. Claro que nem sempre dá certo. Tento manter a essência, a tradição, mas sempre associada a um elemento atual. Gosto de novas possibilidades. No “Angico”, meu terceiro disco, utilizei alguns ruídos eletrônicos e vários instrumentos tipicamente nordestinos, mas numa linguagem bem pop. No “O som da cabeça do elefante” optei por um caminho mais intimista, assim priorizando os textos/poemas/letras. E por ai vai. Sempre busco um diferencial em cada novo disco. É uma loucura boa. Ainda neste disco tem uma música que foi gravada pelo grupo Ira! É uma parceria minha com o saudoso Zé Rodrix, chama-se “Por Amor”. Meu trabalho mais recente é o: “Com os dentes”. São músicas minhas sobre poemas de diversos autores: de Alphonsus de Guimaraens a Fabrício Carpinejar, passando por Leminski, Alice Ruiz, e até um poeta português, o José Luis Peixoto. É um disco ao vivo gravado em duas noites em São Paulo. No próximo ano sai um disco com uma seleção de músicas de todos os meus discos.
SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?
REYNALDO BESSA - Até onde sei meu pai nunca leu um livro. Ele fez só até a quarta série. Mas era um homem muito inteligente, muito ativo. Vendia coisas. Dizia que um bom vendedor só precisava de três palavras “Você precisa disso”. Minha mãe era mais instruidinha, mas, poucas foram às vezes em que a vi lendo um livro. Então, por sorte, meu irmão mais velho fez isso por todos. Lia tudo: gibis, almanaques, livros, enciclopédias, playboy, receita de bolo, manuais, contratos e por ai vai. Aos dezoito anos ele já falava inglês e espanhol fluentemente sem ter ido à escola nenhuma. Como gostava muito de imitá-lo (meu irmão mais velho foi o meu verdadeiro super-heroi. Foi a minha referência em tudo. Ele também me ensinou violão e a gostar de música) resolvi ler alguma coisa e o primeiro livro que me caiu às mãos foi uma biografia do Olavo Bilac, se não estou equivocado, escrita pelo escritor e jornalista, Fernando Jorge. Aquilo me pegou. Fiquei triste e com uma vontade danada de ouvir estrelas. Não parei mais. Um livro sempre indicava outro e, eu sempre ia atrás dos malditos. Aí decidi fazer Letras (Mas quase desisti, porque aquilo me parecia contrário a tudo o que eu pensava e queria da literatura) Até que um dia resolvi colocar pra fora, creio eu, a síntese de todos os livros, todos os autores, tudo que eu havia devorado. Comecei como praticamente todo principiante: copiando. Fiz uns Bilac, uns Cruz e Souza, Uns Rimbaud, Uns Baudelaire, uns Quintana, uns Drummond, uns Murilo Mendes, Uns Lope de Vega, uns Garcia Lorca, e fui. Até que encontrei a minha voz. E acho que esse é o maior desafio do escritor: encontrar a sua voz. E isso é raro. Não porque é só uma coisa tremendamente difícil, mas porque na maioria das vezes, preferimos não encontrá-la. Preferimos ficar repetindo o que nossos ícones disseram há trucentos anos. Quando realmente consegui me ouvir, percebi que era por ai e fui em frente. Escrevo todos os dias e pretendo escrever até depois do meu último dia. É uma dorzinha boa pra dedéu.
SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados ?
REYNALDO BESSA - Para meu espanto já tenho dois. Quando terminei o primeiro estava exausto, destruído, desolado, perplexo, moído, incrédulo, vazio, perdido e me prometi nunca mais outro. Mas creio que essa coisa é como ressaca: quando estamos em uma, prometemos pra nós mesmos que “nunca mais”, mas logo que saímos dessa, já entramos em outra. Daí surgiu a segunda ressaca, quis dizer, o segundo livro. O primeiro chama-se “Outros Barulhos” poemas, que ganhou o Prêmio jabuti de Poesia em 2009 (orelha de Fabrício Carpinejar) e o segundo é o “Algarobas Urbanas” (contos) que foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2010 (antes de ser publicado) e agora é oficialmente editado por uma editora de São Paulo, a Patuá (orelha de Nelson de Oliveira) Acabei de lançá-lo em sampa. Lançarei mais dois livros em 2012. Haja ressaca.
SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesias ?
REYNALDO BESSA - Não sei. Essa coisa nunca avisa quando vai aparecer e quando se vai nunca deixa o nome. Acho que esse “estalo” é fruto de todo esforço que foi feito antes: os exercícios da escrita, as tentativas frustradas, os experimentos, leituras, releituras, transpirações e tudo mais. Apenas posso arriscar que esse detonador pode ser um cheiro; um trecho de uma conversa; uma imagem; uma lembrança; alguém; algo; um som; um ruído; uma música ou até mesmo o silêncio, sei lá. Mas penso que, por mais que o poeta tenha esse poder de captar a “coisa”, essa coisa nunca é a coisa mesmo. Entende? Mas ou menos como alguém que aprisiona o pássaro na tentativa de apreender o voo. Bom! Não fico me perguntando o que seja isso nem mesmo como funciona, contanto que continue vindo.
SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?
REYNALDO BESSA - Muitos. Cada um na sua pegada: poetas, romancistas, cronistas, biógrafos. Da biografia do príncipe dos poetas, Olavo Bilac, até hoje, muitos livros apareceram. Andei até dando uma fuçada em Timóteo de Mileto (Músico e poeta lírico). Tenho predileção por diversos autores e quando descubro um, logo cometo o pecado de ler tudo do infeliz. Mas já que citei o antigo Timóteo de Mileto, faço questão de citar também minha mais recente descoberta: Saul Bellow (romancista, judeu, canadense, já morto, Nobel 1976). Já li “Henderson – o rei da chuva”, “As aventuras de Augie March” e recentemente terminei “Herzog”. Assim, um atrás do outro como uma fileirinha de dominós. Densos e prazerosos calhamaços. Entre os estrangeiros, romancistas, gosto também de Hemingway, Bukowski, Henry Miller, F. Scott Fitzgerald, Virginia Woolf, Anais Nin, Roberto Bolaño, Primo Levi, Philip Roth, Céline, Faulkner, John Fante, Camus, Sartre. Entre os poetas, gosto de Rimbaud, Baudelaire, Verlaine, Ezra Pound, Dylan Thomas e muitos outros. Entre os brasileiros, gosto de Rubem Fonseca, Reinaldo Morais, Marçal Aquino, Quintana, Murilo Mendes, Drummond, Leminski, Alice Ruiz, Nelson de Oliveira, Rubem Braga, Lygia Fagundes Telles, Ana Cristina César, Marcelo Mirisola, Carpinejar e muitos outros. Assim, tudo misturado.
SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?
REYNALDO BESSA - Leiam muito - Schopenhauer não recomendaria isso - conheçam um bocado de tudo antes de rabiscarem alguma coisa para não correrem o risco de contarem novamente a história do cavaleiro errante que saiu de sua cidade natal montado num pangaré e resolveu desafiar os moinhos/gigantes. Leiam e quando, enfim! Resolverem publicar, ouçam Quintana. Ele dizia que o poeta só deve publicar dez por cento dos seus escritos. Escrevam muito e deletem mais. Escrever é cortar palavras. O mineiro estava certo. Descubram sua voz. E principalmente não copiem ninguém. Não vou me estender sobre o preço do livro, o absurdo número de analfabetos que ainda temos, o livro digital, encalhes, direitos autorais e distribuição. Não é bem a função do escritor, mas aproveitem e deem uma olhadinha no mercado editorial só pra sentirem o que têm pela frente. A literatura, assim como a vida, não é para os covardes. Ninguém sai imune dela. Ou melhor, uma vez dentro, não se sai jamais.
POESIAS

dentro
da velha companheira
caneta bic,
uma dor líquida
cor azul infância.
****
partido:
mais uma partida
perdida pra vida
ela é viva
uivo.
***
um tiro
na têmpora da
memória
***
Se algum dia me perguntarem
se já pus um pôr-do-sol na boca,
direi que sim.
Ainda trago raios
entre os dentes.
***
Fui assaltado
pelo tempo
ele levou meu coração
com ela dentro
***
hoje nenhuma palavra
a ser dita
nenhum grito,
nenhum silêncio
saudade nenhuma
nada
apenas um dia
que despencou do
calendário
***
deixa disso
siga o risco
o que é a vida
se não olho e cisco?

Reynaldo Bessa é músico e escritor. Já lançou cinco CDs. O mais recente com músicas suas sobre diversos poemas de autores como: Drummond, Leminski, Auta de Souza, Alphonsus de Guimaraens, além de Fabrício Carpinejar, Ricardo Corona, Alice Ruiz entre outros. Em 2008 lançou seu primeiro livro “Outros Barulhos – Poemas” (Prêmio Jabuti 2009 - Poesia). Em 2010 foi um dos finalistas do PRÊMIO SESC DE LITERATURA , com o seu livro de contos “Algarobas Urbanas” (editora Patuá) lançado recentemente. O autor tem contos, crônicas, poemas publicados em revistas, jornais, suplementos literários pelo Brasil e exterior. Atualmente prepara seu sexto disco.
REYNALDO BESSA
contato@reynaldobessa.com.br
www.algarobas.blogspot.com
www.reynaldobessa.com.br
ENTREVISTA

SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?
REYNALDO BESSA - Já fui bancário, vendedor, professor, tradutor. Uma lista enorme. Hoje sou músico e escritor. Nada além disso. Não só escrevo meus livros e faço meus shows, como também sou convidado para festas literárias, feira de livros, bate-papos sobre o meu processo de criação, faço oficinas de escrita criativa, workshops, escrevo prefácios e orelhas para editoras e jornais. Sou convidado pra falar sobre música também. Como fiz um disco só com poemas musicados, sou bastante solicitado pra falar sobre a música na poesia. Em novembro darei uma palestra na Academia Araçatubense de letras – SP. O tema será: “A música na poesia: de Timóteo de Mileto a Chico Buarque”
SELMO VASCONCELLOS – Como cantor e compositor, poderia falar um pouco sobre os seus CD’s e as fontes de inspirações ?
REYNALDO BESSA - Já lancei cinco discos: “Outros Sóis” (1994), “O Beco das frutas” (1996), “Angico” (2000), “O som da cabeça do elefante” (2004) e “Com os dentes” (2006). Este último ao vivo. Nestes cinco CDs rolaram muitas transpirações. Por vir de uma região muito rica em ritmos: o nordeste, onde ouvimos desde muito cedo o baião; xote; xaxado; repente; cordel e tantos outros, sou conhecedor e fascinado por esse universo, mas ao mesmo tempo estou sempre aberto a novas experiências. Gosto de ouvir uma coisa boa que alguém lá do outro lado do mundo acabou de lançar. Assim tento encontrar uma síntese disso tudo. Esse é o meu grande desafio. Claro que nem sempre dá certo. Tento manter a essência, a tradição, mas sempre associada a um elemento atual. Gosto de novas possibilidades. No “Angico”, meu terceiro disco, utilizei alguns ruídos eletrônicos e vários instrumentos tipicamente nordestinos, mas numa linguagem bem pop. No “O som da cabeça do elefante” optei por um caminho mais intimista, assim priorizando os textos/poemas/letras. E por ai vai. Sempre busco um diferencial em cada novo disco. É uma loucura boa. Ainda neste disco tem uma música que foi gravada pelo grupo Ira! É uma parceria minha com o saudoso Zé Rodrix, chama-se “Por Amor”. Meu trabalho mais recente é o: “Com os dentes”. São músicas minhas sobre poemas de diversos autores: de Alphonsus de Guimaraens a Fabrício Carpinejar, passando por Leminski, Alice Ruiz, e até um poeta português, o José Luis Peixoto. É um disco ao vivo gravado em duas noites em São Paulo. No próximo ano sai um disco com uma seleção de músicas de todos os meus discos.
SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário?
REYNALDO BESSA - Até onde sei meu pai nunca leu um livro. Ele fez só até a quarta série. Mas era um homem muito inteligente, muito ativo. Vendia coisas. Dizia que um bom vendedor só precisava de três palavras “Você precisa disso”. Minha mãe era mais instruidinha, mas, poucas foram às vezes em que a vi lendo um livro. Então, por sorte, meu irmão mais velho fez isso por todos. Lia tudo: gibis, almanaques, livros, enciclopédias, playboy, receita de bolo, manuais, contratos e por ai vai. Aos dezoito anos ele já falava inglês e espanhol fluentemente sem ter ido à escola nenhuma. Como gostava muito de imitá-lo (meu irmão mais velho foi o meu verdadeiro super-heroi. Foi a minha referência em tudo. Ele também me ensinou violão e a gostar de música) resolvi ler alguma coisa e o primeiro livro que me caiu às mãos foi uma biografia do Olavo Bilac, se não estou equivocado, escrita pelo escritor e jornalista, Fernando Jorge. Aquilo me pegou. Fiquei triste e com uma vontade danada de ouvir estrelas. Não parei mais. Um livro sempre indicava outro e, eu sempre ia atrás dos malditos. Aí decidi fazer Letras (Mas quase desisti, porque aquilo me parecia contrário a tudo o que eu pensava e queria da literatura) Até que um dia resolvi colocar pra fora, creio eu, a síntese de todos os livros, todos os autores, tudo que eu havia devorado. Comecei como praticamente todo principiante: copiando. Fiz uns Bilac, uns Cruz e Souza, Uns Rimbaud, Uns Baudelaire, uns Quintana, uns Drummond, uns Murilo Mendes, Uns Lope de Vega, uns Garcia Lorca, e fui. Até que encontrei a minha voz. E acho que esse é o maior desafio do escritor: encontrar a sua voz. E isso é raro. Não porque é só uma coisa tremendamente difícil, mas porque na maioria das vezes, preferimos não encontrá-la. Preferimos ficar repetindo o que nossos ícones disseram há trucentos anos. Quando realmente consegui me ouvir, percebi que era por ai e fui em frente. Escrevo todos os dias e pretendo escrever até depois do meu último dia. É uma dorzinha boa pra dedéu.
SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados ?
REYNALDO BESSA - Para meu espanto já tenho dois. Quando terminei o primeiro estava exausto, destruído, desolado, perplexo, moído, incrédulo, vazio, perdido e me prometi nunca mais outro. Mas creio que essa coisa é como ressaca: quando estamos em uma, prometemos pra nós mesmos que “nunca mais”, mas logo que saímos dessa, já entramos em outra. Daí surgiu a segunda ressaca, quis dizer, o segundo livro. O primeiro chama-se “Outros Barulhos” poemas, que ganhou o Prêmio jabuti de Poesia em 2009 (orelha de Fabrício Carpinejar) e o segundo é o “Algarobas Urbanas” (contos) que foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2010 (antes de ser publicado) e agora é oficialmente editado por uma editora de São Paulo, a Patuá (orelha de Nelson de Oliveira) Acabei de lançá-lo em sampa. Lançarei mais dois livros em 2012. Haja ressaca.
SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir poesias ?
REYNALDO BESSA - Não sei. Essa coisa nunca avisa quando vai aparecer e quando se vai nunca deixa o nome. Acho que esse “estalo” é fruto de todo esforço que foi feito antes: os exercícios da escrita, as tentativas frustradas, os experimentos, leituras, releituras, transpirações e tudo mais. Apenas posso arriscar que esse detonador pode ser um cheiro; um trecho de uma conversa; uma imagem; uma lembrança; alguém; algo; um som; um ruído; uma música ou até mesmo o silêncio, sei lá. Mas penso que, por mais que o poeta tenha esse poder de captar a “coisa”, essa coisa nunca é a coisa mesmo. Entende? Mas ou menos como alguém que aprisiona o pássaro na tentativa de apreender o voo. Bom! Não fico me perguntando o que seja isso nem mesmo como funciona, contanto que continue vindo.
SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?
REYNALDO BESSA - Muitos. Cada um na sua pegada: poetas, romancistas, cronistas, biógrafos. Da biografia do príncipe dos poetas, Olavo Bilac, até hoje, muitos livros apareceram. Andei até dando uma fuçada em Timóteo de Mileto (Músico e poeta lírico). Tenho predileção por diversos autores e quando descubro um, logo cometo o pecado de ler tudo do infeliz. Mas já que citei o antigo Timóteo de Mileto, faço questão de citar também minha mais recente descoberta: Saul Bellow (romancista, judeu, canadense, já morto, Nobel 1976). Já li “Henderson – o rei da chuva”, “As aventuras de Augie March” e recentemente terminei “Herzog”. Assim, um atrás do outro como uma fileirinha de dominós. Densos e prazerosos calhamaços. Entre os estrangeiros, romancistas, gosto também de Hemingway, Bukowski, Henry Miller, F. Scott Fitzgerald, Virginia Woolf, Anais Nin, Roberto Bolaño, Primo Levi, Philip Roth, Céline, Faulkner, John Fante, Camus, Sartre. Entre os poetas, gosto de Rimbaud, Baudelaire, Verlaine, Ezra Pound, Dylan Thomas e muitos outros. Entre os brasileiros, gosto de Rubem Fonseca, Reinaldo Morais, Marçal Aquino, Quintana, Murilo Mendes, Drummond, Leminski, Alice Ruiz, Nelson de Oliveira, Rubem Braga, Lygia Fagundes Telles, Ana Cristina César, Marcelo Mirisola, Carpinejar e muitos outros. Assim, tudo misturado.
SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?
REYNALDO BESSA - Leiam muito - Schopenhauer não recomendaria isso - conheçam um bocado de tudo antes de rabiscarem alguma coisa para não correrem o risco de contarem novamente a história do cavaleiro errante que saiu de sua cidade natal montado num pangaré e resolveu desafiar os moinhos/gigantes. Leiam e quando, enfim! Resolverem publicar, ouçam Quintana. Ele dizia que o poeta só deve publicar dez por cento dos seus escritos. Escrevam muito e deletem mais. Escrever é cortar palavras. O mineiro estava certo. Descubram sua voz. E principalmente não copiem ninguém. Não vou me estender sobre o preço do livro, o absurdo número de analfabetos que ainda temos, o livro digital, encalhes, direitos autorais e distribuição. Não é bem a função do escritor, mas aproveitem e deem uma olhadinha no mercado editorial só pra sentirem o que têm pela frente. A literatura, assim como a vida, não é para os covardes. Ninguém sai imune dela. Ou melhor, uma vez dentro, não se sai jamais.
POESIAS

dentro
da velha companheira
caneta bic,
uma dor líquida
cor azul infância.
****
partido:
mais uma partida
perdida pra vida
ela é viva
uivo.
***
um tiro
na têmpora da
memória
***
Se algum dia me perguntarem
se já pus um pôr-do-sol na boca,
direi que sim.
Ainda trago raios
entre os dentes.
***
Fui assaltado
pelo tempo
ele levou meu coração
com ela dentro
***
hoje nenhuma palavra
a ser dita
nenhum grito,
nenhum silêncio
saudade nenhuma
nada
apenas um dia
que despencou do
calendário
***
deixa disso
siga o risco
o que é a vida
se não olho e cisco?

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