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12.1.10

MARCELO MOURÃO - ENTREVISTA

MARCELO MOURÃO

PEQUENA BIOGRAFIA

Marcelo Mourão é professor e escritor. Nasceu em 1973, no bairro do Engenho de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro, e começou a fazer poesia em 1989.

Atuou como vocalista e letrista da banda Atos de Loucura, durante a década de 90, em pleno Brock (Rock Brasil).

Desde 2007 é militante do movimento artístico e poético. Participa de vários eventos, shows, antologias e agitos literários na Internet.

É um dos organizadores e apresentadores do sarau POLEM (Poesia no Leme), desde seu início em 2008, e participa da Agenda da Tribo.

Tem um romance inédito e outro em elaboração.

O DIÁRIO DO CAMALEÃO é o seu primeiro livro solo e marca de forma comemorativa seus 20 anos de poesia.

ENTREVISTA


SELMO VASCONCELLOS - Quais as suas outras atividades, além de escrever ?

MARCELO MOURÃO - Sou professor de ensino fundamental e médio. Cursei História na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Pedagogia na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Neste ano de 2010, começo o curso de Letras e pretendo, nesta disciplina, fazer pós, mestrado e doutorado. Fora isso, desenvolvo também uma atividade não remunerada: produzir e apresentar o POLEM (Poesia no Leme), que é um sarau semanal (toda quarta-feira) e ocorre aqui no meu Estado, o Rio de Janeiro.

SELMO VASCONCELLOS - Como surgiu seu interesse literário ?

MARCELO MOURÃO - Surgiu bem cedo. Me recordo de, aos 4 anos de idade, pedir a meus familiares que lessem revistas e jornais para mim. Sempre quis conhecer diferentes realidades e a leitura sempre foi a porta aberta para um mundo novo e, por muitas vezes, fascinante. Eu sempre digo: quem lê bastante, provavelmente, um dia desejará escrever. Penso que uma coisa acaba provocando a outra. Comecei lendo quadrinhos, histórias infantis (muito Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Pedro Bandeira, Ziraldo, Maria Claro Machado, etc) e jornal sempre. Não tive como escapar da sina! (risos)

SELMO VASCONCELLOS - Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?

MARCELO MOURÃO - Participei de algumas antologias poéticas, mas só neste ano de 2009 é que lancei meu primeiro livro (de poesia), "O diário do camaleão". Em breve, pretendo editar também um primeiro romance, que tem como temas centrais a Aids, o HIV e a sorodiscordância - assuntos bastante atuais inseridos numa história que mistura ficção e informação (longe de ser didático).

SELMO VASCONCELLOS - Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?

MARCELO MOURÃO - Ah... Desde o sorriso de um filho até uma pessoa que acabou de ser morta e você passou na rua e presenciou. Há muitas motivações para se começar a escrever. Costumo dizer que livros nascem de indagações e inquietudes do autor e acabam sendo a busca utópica pelas respostas a estes questionamentos. Gosto muito do debate que se abre, seja através de um poema ou de um romance, de um conto ou de uma crônica. Este romance, que vou lançar futuramente, nasceu da leitura de uma reportagem sobre casais sorodiscordantes, isto é, onde um parceiro tem HIV e o outro não. Antes de ler a revista, jamais imaginava que existissem pessoas de diferentes sorologias casadas ou se relacionando afetivamente. Foi uma surpresa e logo acendeu um estopim na minha cabeça. Pensei: "Preciso investigar, ler mais sobre isso". E assim nasceu a vontade de colocar este assunto para as outras pessoas. Quebrar preconceitos, informar, derrubar ignorâncias, desinformações. Eu mesmo entrei com uma cabeça no limiar do livro e saí com outra quando coloquei o ponto final na história. Esta mudança de mentalidade ocorreu graças à minha extensa pesquisa (através de livros e pela internet também) e ao meu convívio com médicos e portadores (em entrevistas e encontros de comunidade do orkut). Agora, na área da poesia, há múltiplas motivações para se escrever. O meu livro recém-lançado tem temáticas muito variadas.

SELMO VASCONCELLOS - Quais os escritores que você admira ?

MARCELO MOURÃO - Ai... São tantos! Na poesia: Drummond, Bandeira, Paulo Leminski, Mário Quintana, Carlos Nejar, Leila Míccolis, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Cruz e Souza, Gregório de Matos, Augusto dos Anjos, Florbela Espanca, Lêdo Ivo, Alice Ruiz, Geraldo Carneiro, Tanussi Cardoso, Laura Esteves, Marcus Vinícius Quiroga, Cairo Trindade, José Henrique Calazans, Eduardo Tornaghi. São tantos! Devem estar faltando ainda muitos outros...
No romance: Jorge Amado, Eça de Queiroz, José Saramago, Kafka, Thomas Mann, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Aluísio Azevedo. E agora, por estar elaborando meu segundo romance dentro do gênero policial, estou devorando os mestres Ágatha Christie e Conan Doyle.
Mas, olha, são muitos autores que adoro e em diferentes áreas. Eu sou leitor voraz de filosofia também. Adoro Sartre, Foucault, Nietzsche, Marx, Freud, Rousseau, Platão, Jung, Hegel. É complicado citar tanta gente boa. Claro que esqueci, de novo, de vários que já li e gostei.

SELMO VASCONCELLOS - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?

MARCELO MOURÃO - Estudem, estudem e estudem. Leiam inúmeros e variados autores, tanto os contemporâneos quanto os nossos mestres do passado. Escrevam muito, pratiquem bastante e estejam abertos e antenados no que rola e no que não rola de bom na atualidade. Até o que não é bom nos ajuda no nosso processo de amadurecimento. Abraços a todos!

POEMAS

HERÓI DE VITRINE

não penso como aristóteles
nem teorizo como michel foucault
tampouco juro como hipócrates
e jamais escrevi igual a rousseau
a pomba do meu pentencostes
na minha cabeça sempre defecou

nunca decodifiquei feito kardec
e sequer perdi a cabeça tal qual danton
não pinto como toulouse lautrec
nem me igualo a diógenes, o bom
mas, quem sabe, sou guevara de pileque
me sentindo o deus da revolução

MARAVILHOSO MUNDO MODERNO

tudo tão deprê, tão dark
desde o champs-élysées
até o central park
tudo tão off, tão fake
sem grana pro botox
bota na cara um pancake
e se rolar sessão de fotos
não tem grilo, é mole mole
tem a mãozinha do photoshop

tudo tão crazy, tão trash
diploma é enfeite
de quem o consegue
tudo tão lost, tão fuck off
neguinho torce
pra arrumar um bico
serve até boy sem moto
a crise tá mesmo foda
qualquer merreca já desafoga

tudo tão bad, tão shit
chovem pestes
sem ser as do egito
tudo tão tosco, tão triste
doença da vaca, do porco,
aids, pandemias e gripes
é a era do mato ou morro
não fujo pro mato nem pro morro
só me resta é gritar: socorro!

NO REINO DA PÓS-MODERNIDADE

para Marcus Vinícius Quiroga

na net, com o planeta me conecto:
vejo a terra passar em minha tela.
tudo tão perto quando abro janelas.
navego sentado, passivo e quieto.
(e a solidão continua um espectro)

na rua, as pessoas mal se olham.
vão com seus fones enfiados na orelha:
mp3, mp4, ipod ou outro som qualquer.
nada de sorrisos, acenos, gentilezas.
(e a solidão continua a ser o que é)

no mundo, manda a deusa cibernética,
com suas promessas de felicidade.
e nós, seus servos, afogados em mares
de cds, dvds, laptops e celulares.
(e solidão é o outro nome de modernidade)

A SAGUMANA NO SOLO DE GAIA

o bichumano subiu no telhado.
tem medo de cobra e mordida de rato,
da ave agourenta que no céu passa
e até de si mesmo: réu e comparsa,
vítimalgoz de sua própria desgraça.

o cegumano rasgou seus contratos.
não enxerga leis, regras, cláusulas.
fez sua fome não caber mais no prato.
misturou deus e darwin numa lógica crápula:
o paraíso é dos belos e fortes de cada raça.

o ser-engano construiu seu reinado.
inventou a guerra, sujou mares e serras,
prostituiu todos os seus bens sagrados.
seu destino é devorar pedras e pérolas,
sem notar a diferença que há entre elas.

FOGO CRUZADO

tua voz, teu cheiro, tua imagem:
qualquer vestígio teu em mim
já faz soar meus mil alarmes.
somos fogueiras de mesma linhagem:
o que te incendeia em mim sempre arde.

teus gemidos, meu gozo, nossa mágica:
tudo vaza e inunda cada canto da casa.
na fonte do teu corpo achei minha água.
sem fronteiras, o amor ganhou asas:
mergulhamos um no outro como kamikazes.

minha fome, tua sede, tudo se encaixa:
no alfabeto da entrega vamos do ômega ao alfa.
meu céu de desejos sobre teu mar desaba.
sentimento assim põe o coração em brasa:
até as almas gozam quando os corpos se casam.

7 Comentários:

  • Selmo, pelo incentivo à Cultura e, também, pelo excelente nível de suas entrevistas e pela ótima escolha de seus entrevistados;
    minha admiração!
    Falar de Marcelo Mourão, requer uma certa responsabilidade, pois tenho grande admiração por esse escritor-poeta, por ser um homem culto, estudioso,inteligente e pelo dom; por saber aonde quer chegar, ele veio pra ficar! Veio pra dar uma mexida na poesia, escrever diferente, não cai na obvialidade de alguns escritores,é um escritor contemporâneo!
    Além de dar um grande incentivo à Poesia no Orkut e carregar essa bandeira bem alta, no POLEM!

    Saudações poéticas ao Selmo!

    Ao Marcelo, o meu abraço e o agradecimento pela força e pelo grande incentivo que me dá pra que eu cresça cada vez mais como poeta!

    Por Blogger SOB O SOL DA TOSCANA, às 7:01 PM  

  • Gosto mt do trabalho do Marcelo, o conheci através de orkut.

    Parabéns pela entrevista.

    Paola Vannucci

    Por Blogger Paola Vannucci, às 3:42 AM  

  • Este comentário foi removido pelo autor.

    Por Anonymous Anônimo, às 3:02 PM  

  • Marcelo, você não existe…apenas brilha! Brilho de conhecimento e de sentimento. Você é o que há de melhor na poesia: Vasta cultura e natureza pura.

    beijos!

    Rakel

    Por Anonymous Anônimo, às 3:03 PM  

  • Selmo e suas entrevistas...sempre pinçando nossa nata poética. Parabéns pela condução e palmas para o entrevistado.
    Baci

    Por Blogger Sigrid Pontes, às 7:46 PM  

  • Marcelo,

    um privilégio poder conhecer neste questionário um pouco mais do seu pensamento e de suas lides com o universo literário. As entrelinhas de suas respostas inteligentes denotam o artista que de fato você é e ainda nos brinda com alguns poemas de inquestionável qualidade e originalidade. Parabéns, querido amigo! Siga em frente! Sucesso!

    Tchello d'Barros
    Maceió - AL - Brasil

    Por Blogger Tchello d'Barros, às 1:43 AM  

  • Marcelo, muito lúcida e bem escrita a sua entrevista. Vc, com toda certeza, é um "cabra marcado" pra escrever. Ainda novo, começou muito bem, com um livro de qualidade. E está sabendo divulgar-se, ao mesmo tempo, beneficiando outros autores e o movimento cultural. Parabéns. Ricardo Alfaya.

    Por Anonymous Anônimo, às 7:15 PM  

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